A Balança Comercial Mostra o Real Tamanho da Bolha Financeira Americana

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Escrito por : Antonio Auriemo

A Balança Comercial Mostra o Real Tamanho da Bolha Financeira Americana

Era 14 de outubro de 1987. As 8.30 da manhã, hora local de Nova Iorque, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos acabava de anunciar um déficit na balança comercial de bens americana, de agosto de 1987, de 13.7 bilhões de dólares. Logo após a abertura do mercado, os índices de ações americanas apresentaram forte queda: o S&P 500 teve uma queda de 2.9% e o índice Dow Jones teve uma queda de 3.18% no dia. Os déficits comerciais (que já vinham crescendo desde o começo do ano) foram a principal razão para o crash de 1987, que na semana seguinte acabaria por destruir cerca de 30% do valor de mercado das empresas americanas.  

Voltando aos dias atuais, no dia 26 de janeiro de 2022, o mesmo Departamento de Comércio dos Estados Unidos anunciou um déficit na balança comercial de bens, do mês de dezembro de 2021, de 101 bilhões de dólares. O déficit consolidado do ano de 2021 chegou a 1.08 trilhões de dólares, ante um déficit de 893.5 bilhões em 2020. Tanto o crescimento do déficit no mês de novembro a dezembro (3%), quanto o crescimento de 2020 a 2021 (21%), foram os maiores da história. Quilômetros acima das expectativas dos analistas macroeconômicos, o mercado pareceu não se importar com os dados, que haviam causado tamanho tumulto 35 anos atrás. As altas de juros e a queda no valor do dólar e nas bolsas em 1987 foram substituídas, em 2022, por uma alta no valor do dólar e estabilidade nos juros de longo prazo e nas bolsas.  

*Conta Corrente = Balança Comercial + Balança de Serviços e Renda +  Balança de Transferências Unilaterais

*Conta Corrente = Receita Nacional Bruta Disponível + Despesas Nacionais Bruta       

*Balança Comercial = Exportações – Importações  

*Balança Comercial = Produto Interno Bruto – Despesas Nacionais Bruta

Para melhor entender a significância dos déficits comerciais americanos e o estado da economia estadunidense como um todo, gostaria de voltar ao ano de 1945, época em que o dólar se tornou uma moeda de reserva global. Com a expressiva vitória dos Estados Unidos na segunda guerra, o Acordo de Bretton Woods (nova ordem econômica e monetária, criada em 1944) estabeleceu o dólar como a moeda soberana, substituindo a libra esterlina como moeda de reserva global. O valor das principais moedas passou a ser indexado ao dólar em um regime de câmbio não-flutuante e a maior parte das reservas dos bancos centrais foram dolarizadas. Os termos do Acordo de Bretton Woods só foram possíveis, por dois motivos: (I) a maioria do comércio já era feito em dólares; (II) os EUA tinham a maior reserva de ouro do mundo. A força econômica e produtiva dos Estados Unidos junto com a necessária credibilidade monetária permitiram que o dólar se tornasse a moeda de reserva global. 

O trecho seguinte, escrito por Ray Dalio no seu livro Principles for Dealing with the Changing World Order, explica muito bem as consequências de um país deter o controle monetário de uma moeda de reserva: “As moedas dos países mais ricos e poderosos tornam-se as moedas de reserva do mundo, o que lhes dá o privilégio exorbitante de poder pedir mais dinheiro emprestado, o que os deixa ainda mais endividados. Isso aumenta o consumo do império dominante no curto prazo e o enfraquece no longo prazo. Em outras palavras, quando o endividamento e o consumo são fortes, o império líder parece forte, embora suas finanças estejam de fato enfraquecidas. Esse endividamento excessivo pode durar um bom tempo e até mesmo se auto-fortalecer, porque fortalece a moeda de reserva. Contudo a dívida come o patrimônio líquido, o que exige que seu banco central crie muito dinheiro e crédito o que desvaloriza a moeda até que ninguém queira manter a moeda de reserva como um depósito de riqueza.” 

É exatamente esse arquétipo que vem acontecendo nos Estados Unidos. Os Estados Unidos, desde a década de 40, vêm se tornando demasiadamente endividados (fenômeno esse justamente possibilitado pelo dólar ser a moeda de reserva) e como consequência improdutivo para sustentar o seu atual nível de consumo; o que é compensado por um déficit na balança comercial. Esse crescimento na oferta de crédito e moeda nos Estados Unidos durante as décadas de 40 a 70 se deu por 2 principais motivos: (I) crescentes gastos públicos para financiar programas sociais e a guerra fria (a política de “armas e manteiga”); (II) a monetização da dívida pelo Fed, i.e. a compra das dívidas públicas americanas por parte de banco central para sustentar o aumento dos gastos (o chamado quantitative easing de hoje). Essa expansão no crédito (como pode ser visto nos gráficos abaixo), além de resultar no fim do padrão ouro (1971) foi também o que causou esse permanente desequilíbrio entre produtividade e consumo nos EUA.

Durante essas décadas, o crescente número de passivos em dólar fortaleceu (e vem fortalecendo até hoje) ainda mais a moeda americana como moeda de reserva, como o descrito por Ray Dalio. Portanto, foi justamente o fato dos EUA deterem o controle monetário da moeda de reserva global (o dólar) o que permitiu que a queda de produtividade dos anos 70, não se transformasse em uma queda de consumo – o país agora podia importar bens em troca de dólares ou ativos financeiros dolarizados. O ex Secretário de Estado americano e economista George Schultz explica: “Se um país consome mais do que produz, deve importar mais do que exporta. Isso não é um roubo; isso é aritmética. Os déficits nas contas públicas, um ato maciço e contínuo de despoupança, são os culpados. Controle esses gastos e você controlará os déficits comerciais.”

Como descrito acima, para suprir a queda na produtividade relativa e manter o seu nível de consumo, os EUA passaram a exportar ativos financeiros dolarizados ao resto do mundo em troca de bens. Seguindo a lógica da balança de pagamentos (ver gráfico abaixo) todo o déficit na balança comercial de bens deve ser compensado por um saldo positivo na balança de ativos financeiros. Portanto, a dolarização do mundo está inteiramente relacionada com uma queda da produtividade em relação ao nível consumo nos EUA. Como sintetiza o economista e Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz: “A demanda global por dólares suplantou a demanda por bens manufaturados e serviços, resultando em déficits comerciais multilaterais.”. Um interessante dado que ilustra a dolarização do mundo é que em 1965 apenas 13 bancos americanos tinham operações internacionais, já em 1980 esse número passou para 787.

A Armadilha dos Déficits Comerciais

“Um déficit em conta corrente mede quanto um país gasta além de sua renda ou – equivalentemente – como economiza muito pouco em relação às suas necessidades de investimento. Agora podemos entender o uso generalizado do déficit em conta corrente na mídia como uma medida de como um país está “gastando mais do que ganha” ou “economizando muito pouco” ou “vivendo além de seus meios.” – Robert Fenestra em seu livro International Macroeconomics

Qual é a implicação desses déficits comerciais e até quando os EUA irão conseguir sustentar esse chamado “desequilíbrio global”? Desde 1970/80 tanto os déficits fiscais (nas contas públicas) quanto os déficits comerciais só aumentaram (como pode ser visto nos primeiros dois gráficos). Como os déficits na balança comercial são, em última análise, sustentados pela exportação de ativos financeiros, quanto maior os déficits na balança comercial de bens, maior é preciso que seja o valor desses mesmos ativos financeiros. É exatamente isso que o Fed vem buscando desde 1980: conduzir a sua política monetária com o fim de aumentar o valor dos ativos financeiros para financiar o consumo desproporcional dos Americanos.   

Se olharmos para gráficos que mostram as taxas de juros, a oferta de crédito ou a oferta monetária, conseguimos perceber que, desde a década de 1980 (quando os déficits comerciais e fiscais se tornaram endêmicos) todos os ciclos de contração monetária têm sido menores do que os anteriores. A fim manter o alto padrão de consumo Americano por ainda mais tempo, quando as taxas de juros chegaram a zero (em 2008), o Fed embarcou em um processo de monetização de ativos financeiros (conhecido como quantitative easing). Em 2020 e 2021, depois de 13 anos de diversas rodadas de quantitative easing, o Fed decidiu partir para uma política ainda mais expansionista: a compra de dívida pública no mercado primário, financiando diretamente o governo que, em seguida, distribuiu todo esse dinheiro recém criado à população. Esse ciclo, portanto, é o de uma constante e exponencial necessidade de mais e mais crédito e moeda na economia para adiar o estouro da bolha. 

“Nossa economia (a dos EUA) é fraca porque estamos mais dependentes do que nunca da capacidade produtiva do resto do mundo. Se realmente tivéssemos uma economia forte, estaríamos produzindo as coisas que importamos. Não teríamos déficits comerciais. Economias fortes têm superávits comerciais. Somos uma economia de bolha. Só estamos consumindo e importando porque estamos imprimindo dinheiro. E estamos conseguindo fazer isso porque o mundo ainda valoriza nossa moeda.” – Peter Schiff, investidor Americano

Tanto o Fed, quanto o governo dos EUA estão presos nessa armadilha de alta dívida e alto consumo, junto com baixa produtividade relativa e baixa poupança. Fenômeno esse que vem se formando desde 1945, quando o dólar se tornou uma moeda de reserva. Como a história mostrou diversas vezes, e como irei abordar em próximos textos, a única saída para uma crise de crédito é a desvalorização da moeda (inflação). Um princípio cunhado por Ray Dalio que se aplica bem a este contexto é “a dívida come o patrimônio, mas os bancos centrais podem, ao invés, alimentar a dívida imprimindo dinheiro”. Portanto, para prevenir uma grande crise, o governo e o Fed ficarão forçados a permanecer nessa crescente curva de sempre prover mais e mais fôlego (moeda e crédito) ao mercado. 

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