Powell vs Bernanke – As diferenças entre as políticas monetárias de 2020/21 e 2008/09

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Escrito por : Antonio Auriemo

Powell vs Bernanke – As diferenças entre as políticas monetárias de 2020/21 e 2008/09

O ano de 2008 foi marcado pela maior crise financeira no mundo desde 1929 e grande parte das políticas monetárias implementadas naquela época foram, em alguns aspectos, similares às vigentes nos dias atuais. Portanto, hoje, muitos se perguntam sobre a validade da hipótese de inflação persistente hoje, uma vez que no decorrer da Grande Recessão os preços permaneceram estáveis. Nesse trecho, tentarei explicar brevemente a diferença entre as políticas monetárias de hoje e as de 2008 e como as do presente carregam uma pressão inflacionária muito maior.     

Ray Dalio, CEO da Bridgewater Associates, faz uma precisa distinção entre três níveis de política monetária que podem ajudar-nos a pensar sobre esse tema. Segundo ele, existem três tipos de política monetária: a política monetária número 1 (MP1), mais comum e menos estimulante, se dá pela manipulação da taxa básica de juros; a MP2 se dá pela compra de ativos financeiros pelo Banco Central (ex. quantitative easing) e é implantada quando a MP1 deixa de ser efetiva pelos juros já estarem em 0%; a MP3 é a mais estimulante delas e acontece quando os governos enviam dinheiro impresso pelo Banco Central direto à população, processo conhecido como dinheiro de helicóptero.

A MP3 é de extrema importância para entendermos a causa da inflação nos Estados Unidos de hoje. A MP3 se dá por uma combinação de política monetária e fiscal ultra estimulantes que partem de um esforço conjunto de bancos centrais e governos. Isso pois, o dinheiro distribuído pelo governo como auxílio fiscal é impresso pelo banco central que financia o governo monetizando as dívidas públicas. É exatamente isso que os EUA vêm fazendo desde março de 2020 – injetando dinheiro impresso pelo Fed na economia.  

Em 2008, apesar de ter sido a maior crise desde a grande depressão de 1929, as políticas monetárias adotadas pelo Fed se resumiram ao corte da taxa básica de juros e a monetização de ativos financeiros (quantitative easing), ou seja, MP1 e MP2. As operações de injeção de liquidez realizadas pelo Fed se resumiram à compra de ativos financeiros (dívidas públicas e hipotecas) já presente nos balanços dos bancos. Portanto, o dinheiro novo não chegou ao consumidor e, consequentemente, não provocou um aumento na demanda. A política do Fed de 2008 foi apenas um afrouxamento contábil a bancos inadimplentes que agora passaram a possuir maiores posições de caixa.  

Isso pode ser visto quando olhamos os dados dos agregados monetários (M1 e M2) e os dados da base monetária. Em 2008 tivemos um aumento jamais visto na base monetária, que se deu não pelo aumento de dinheiro em circulação mas sim por um aumento nas reservas bancárias (efeito do quantitative easing). Já em 2020/21, o crescimento na base monetária é menor do que em 2008, mas o crescimento na oferta e nos agregados (M1 e M2) foram os maiores da história (ver gráficos abaixo). Isso devido ao aumento de dinheiro em circulação e um aumento de depósitos de curto prazo – esses sim grandes combustíveis inflacionários. 

*Base Monetária: total de papel moeda em circulação + reservas bancárias 

*Agregado Monetário (M2): papel moeda em circulação + depósitos à vista + o total de depósitos especiais remunerados de curto prazo + títulos públicos de alta liquidez

As políticas fiscais adotadas em 2008 também afetaram a oferta monetária de forma limitada. Ao contrário do que ocorre hoje, os programas de quantitative easing de 2008 se davam no mercado secundário, onde o Fed comprava títulos públicos já pertencentes aos bancos – financiando o Tesouro Americano apenas de forma passiva. Isso também foi um grande entrave na habilidade do governo de empregar grandes políticas fiscais, que se resumiram em apenas um pacote de 800 bilhões de dólares direcionado a empresas e bancos insolventes, conhecido como TARP (troubled assets relief program).

Em última análise, não houve auxílio monetário e fiscal direto ao cidadão Americano em 2008. Apesar de serem grandes combustíveis inflacionários, a MP1 e a MP2 adotadas em 2008 geraram uma inflação de ativos, mas não de bens de consumo. O fato de impactarem, em maior parte, apenas as reservas bancárias provou-se não suficiente para compensar a queda na demanda agregada – o que, junto com uma enorme contração na oferta de crédito, acabou não resultando em inflação. 

Em 2020 e 2021 temos um cenário distinto, onde a grande novidade em termos de política monetária e fiscal é a MP3 – dinheiro distribuído direto à população. Enquanto 13 anos atrás o dinheiro impresso permaneceu concentrado nos bancos (que tinham ativos financeiros para vender ao Fed), hoje esse dinheiro se disseminou aos consumidores e a um público muito mais amplo – afetando não só a base monetária, mas toda a oferta monetária. A dívida pública, como prevê a MP3, cresceu em mais de 5 trilhões de dólares nos últimos dois anos e o efeito na oferta monetária e na demanda agregada foram muito maiores do que em 2008. 

Portanto, a política monetária e fiscal, caracterizada por Ray Dalio como MP3, tem sido e será um combustível inflacionário muito maior que as políticas (MP1 e MP2) adotadas em 2008. Como dizia Milton Friedman, “A inflação é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário”. Quando a quantidade de dinheiro na economia aumenta com a produtividade (quantidade de bens) se permanecendo inalterada os preços desses bens irão aumentar, i.e. inflação. É exatamente esse o cenário que temos hoje nos Estados Unidos e em grande parte do mundo. 

*O gráfico 1, que mostra a renda e renda recebida de transferências do governo do Americano, nos permite entender como o efeito da MP3 (linha verde) na renda dos Americanos (linha azul e vermelha) foi muito maior em 2020/21 do que em 2008. O gráfico 2 mostra a oferta monetária dos EUA (linha vermelha) junto com o total de dinheiro transferido pelo governo à população – novamente conseguimos compreender a magnitude muito maior das políticas de 2020/21 do que as de 2008.

*Nos gráficos acima conseguimos ver o efeito das políticas monetárias do Fed na quantia em depósitos e depósitos à vista nos EUA – mostrando os maiores crescimentos da história ano após ano. Conseguimos entender também o tamanho do combustível inflacionário da MP3, uma vez que esses depósitos se tornarão, no futuro, consumo. Esses depósitos aparecem no M2 mas não na base monetária, por isso a diferença nos gráficos acima.

*Nos gráficos acima conseguimos ver como a política monetária de 2008 aumentou a base monetária (aumentando as reservas bancárias) mas não os agregados monetários (depósitos de curto prazo e dinheiro em circulação permaneceram estáveis). Hoje, contudo, vemos esses dois últimos indicadores muito elevados, resultado esse da MP3 (política de dinheiro de helicóptero) empregada pelo governo e pelo Fed.

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