Inflação – o que podemos aprender com a década de 70?

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Escrito por : Antonio Auriemo

Inflação – o que podemos aprender com a década de 70?

Durante a pandemia da covid-19, o governo e o banco central dos Estados Unidos injetaram aproximadamente 7,2 trilhões de dólares na economia americana. Essa quantia é equivalente ao PIB da Rússia, Canadá, Brasil e Itália juntos. (1). Por isso, provavelmente a questão mais discutida no mercado de hoje é se todo esse chamado “dinheiro novo” irá ou não levar à inflação nos EUA. A fim de providenciar ao leitor um maior senso crítico sobre a situação atual, achei prudente escrever sobre a crise inflacionária da década de 70; assim o mesmo poderá ter ferramentas mais adequadas e formar uma opinião sobre a situação macroeconômica do presente. 

A década de 1960 foi marcada por uma rápida expansão de crédito e moeda que resultaram em um crescimento econômico impressionante e baixas taxas de desemprego. No entanto, tudo isso foi apenas uma “ilusão de prosperidade”, como o investidor Ronald Stoferle apontaria mais tarde. (2). A política monetária dos anos 60 foi marcada por uma mudança na mentalidade tanto do governo e quanto dos economistas: importantes legisladores declararam que os ciclos econômicos do livre mercado estavam mortos e passaram a adotar uma visão keynesiana, onde o governo achatava as tendências radicais do mercado com políticas monetárias. O consultor financeiro do presidente Lyndon Johnson, Arthur Okun, descreveria a situação financeira dos EUA dos anos 60 como “incomparável, sem precedentes e ininterrupta [..] e um afastamento dramático do passado”. (3).

Contudo, toda essa prosperidade era apenas uma ilusão criada por um aumento nos gastos públicos e uma flexibilização na política monetária. Toda essa “travessura financeira”, como Milton Friedman mais tarde apontaria, fora impulsionada pela política de “armas e manteiga”: altos gastos com assistência social e com atividades bélicas. Durante os anos 60 e início dos anos 70, houve uma grande expansão do estado de bem-estar social dos EUA, com a introdução de um sistema de saúde pública e leis de salários mínimos. Enquanto isso, a América continuou gastando prodigamente com a Guerra Fria, a Corrida Espacial e a Guerra do Vietnã. (4). O resultado foi um déficit orçamentário do governo federal em todos os anos das décadas de 60 e 70, exceto nos anos de 1960 e 1969. (5). 

Como resultado dessa enorme expansão de crédito e moeda nos anos 60, a economia, no início da década 70, se encontrou cheia de reivindicações sobre dinheiro que não podiam ser transformadas na commodity que tal dinheiro tinha como lastro, no caso ouro. É importante pontuar que o sistema monetário dos Estados Unidos era o chamado proto-fiduciário, onde o papel-moeda servia apenas como um certificado sobre uma quantia de dinheiro em ouro. Com a política de facilitação monetária dos anos 60, muito mais certificados foram criados comparados à oferta real de ouro do Estados Unidos. Portanto, a fim de evitar um colapso econômico causado por inadimplência generalizada, o presidente Americano Richard Nixon quebrou a promessa dos EUA de permitir que os detentores de dólares em papel trocassem-os por ouro. (6).

O padrão-ouro, a base do sistema Americano antes de 1971, atuava como um freio aos gastos públicos, proibindo o governo de aumentar impulsivamente a oferta de moeda na economia. Uma vez que todo o dinheiro em circulação deveria ser transformado em ouro, o aumento da oferta monetária só poderia acontecer quando houvesse um aumento na oferta do ouro físico. “Essa mudança para um sistema monetário fiduciário (onde a moeda não é vinculada ao ouro) liberou o Federal Reserve (banco central dos EUA) para criar muito dinheiro e crédito em dólares, o que levou à inflação dos anos 1970”, escreve o investidor Americano Ray Dalio. Sem a restrição da oferta de ouro físico, o governo dos Estados Unidos pode introduzir dinheiro na economia e aprimorar sua política de “armas e manteiga”, levando no final a um valor mais baixo do dólar e um rápido aumento da inflação. (7).

Na eleição de 1972, menos de um ano após o fim do padrão-ouro, o presidente Nixon decidiu embarcar em mais uma rodada de políticas de facilitação monetária, com o objetivo de ganhar a eleição. “Nixon queria dinheiro barato: taxas de juros baixas que promovessem o crescimento no curto prazo e fizessem a economia parecer forte enquanto os eleitores votavam”, escreve a jornalista de finanças Leslie Kramer. (8). Sabe-se até que o presidente Americano pressionou o presidente do Fed, Arthur Burns, a consentir com tal prática expansionista; além disso, muitos dentro da Casa Branca relataram ter ouvido Nixon dizendo “Aceitaremos a inflação se necessário, mas não podemos aceitar o desemprego”. (9).

A bolha de crédito dos anos 60, que criou um montante insustentável de dívida na economia, estouraria no início dos anos 70, quando a produtividade por fim estagnou. Uma vez que o crédito ficou excessivo, a renda das famílias passaram a ser destinadas a financiar tais dívidas; assim, os investimentos e a acumulação de capital foram drasticamente limitados. Como não houve acumulo de capital traduzido posteriormente em investimentos em bens de capital, a produção não poderia se tornar mais eficiente; o crescimento econômico tornou-se inexistente. (10). A inflação atingiu um pico de 12% no final de 1974, enquanto a taxa de desemprego atingiu 20%. Infelizmente, a doutrina econômica dominante ainda culpa o embargo da OPEP sobre os EUA e o aumento do preço do petróleo pela inflação do período, ao invés de responsabilizar as políticas monetárias expansionistas dos anos 60 e 70: “A OPEP recebeu todo o crédito pelo que os EUA fizeram a si mesmos.” (11). 

Levariam mais cinco anos para finalmente superar a inflação. O presidente Carter, no final de seu mandato em 1980, quando a inflação atingiu um pico de 15%, convidou o economista Paul Volcker para presidir o Fed. Volcker acreditava que para conter a inflação, ele precisaria acabar com qualquer tipo de atividade econômica, assim diminuindo a demanda em relação à produtividade. Volcker aumentou as taxas de juros para 20% em 1980, desincentivando qualquer tipo de empréstimo e consumo. Como resultado, as pessoas tornaram-se mais inclinadas a poupar e os preços começaram a cair. O aumento maciço das taxas de juros e o aperto monetário generalizado resultaram em um processo de desalavancagem e em uma reestruturação completa da dívida na economia americana. (12).

Além de um aperto de curto prazo na política monetária, os EUA também precisavam de um cenário mais favorável que promovesse o crescimento da produtividade para conter a inflação. O presidente Ronald Reagan, que assumiu o cargo em 1981, desenvolveu um amplo plano intitulado Reaganomics que visava diminuir a carga e o tamanho do estado. O plano buscava promover a produtividade no longo prazo, atuando em três frentes: reduzindo o crescimento dos gastos do governo, reduzindo o imposto de renda federal e o imposto sobre ganhos de capital e reduzindo a regulamentação governamental. Ao adotar uma política monetária contracionista e empregar um programa de governo liberal, os EUA controlaram a inflação e provocaram um boom no crescimento do PIB ao longo dos anos 80 e 90. (13).

Assim, a economia norte-americana chegaria ao seu apogeu nos seguintes anos: o dólar se fortaleceu e no governo Clinton o país teria superávit orçamentário nos anos de 1998, 1999 e 2000 (o que não acontecia desde 1969). No próximo post do History Now, analisaremos o cenário macroeconômico de hoje e explicaremos os paralelos que podem ser traçados entre a crise delineada acima e a atual. Por fim, pretendo explorar como acredito que o resultado da crise atual, assim como a dos anos 70, será a inflação.

*Gostaria de agradecer a ajuda do Jorge Landmann e da Puri Alvarenga com este texto

Referências

(1) Peter G Peterson Foundation. (2021, March 15). Here’s Everything the Federal Government Has Done to Respond to the Coronavirus So Far. Retrieved April 5, 2021, from https://www.pgpf.org/blog/2021/03/heres-everything-congress-has-done-to-respond-to-the-coronavirus-so-far

(2, 10) Taghizadegan, R., Stöferle, R., Valek, M., & Blasnik, H. (2016). Austrian School for Investors: Austrian Investing between Inflation and Deflation (2nd ed., Vol. 3). Montgomery, Alabama: mises.at.

(3) Thornton, M. (2004, May 7). The “New Economists” and the Great Depression of the 1970s. Retrieved April 5, 2021, from https://mises.org/library/new-economists-and-great-depression-1970s

(4, 8) Kramer, L. (2020, October 1). The Great Inflation of the 1970s. Retrieved April 5, 2021, from https://www.investopedia.com/articles/economics/09/1970s-great-inflation.asp#:%7E:text=Periods%20of%20rapid%20inflation%20occur,in%20turn%20to%20nearly%2020%25.

(5) “Trading Economics Website”

(6, 7, 12) Dalio, R. (2021). The Changing World Order: Why Nations Succeed and Fail (1 ed., Vol. 1). New York, NY: Avid Reader Press / Simon & Schuster.

(9, 11) Greider, W. (1989). Secrets of the Temple: How the Federal Reserve Runs the Country (2nd ed., Vol. 3). New York, NY: Simon & Schuster.

(13) Kenton, W. (2020, November 22). Reaganomics. Retrieved April 5, 2021, from https://www.investopedia.com/terms/r/reaganomics.asp

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