Capitalismo e o Mundo Malthusiano

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Escrito por : Antonio Auriemo

Capitalismo e o Mundo Malthusiano

É difícil imaginar um mundo em que a população não possa superar um certo número de pessoas, e por mais surpreendente que isto possa parecer, este foi o caso em grande parte da história da humanidade. As famílias precisavam se preocupar com quantos filhos teriam, porque a desvantagem de ter mais uma boca para alimentar em um mundo escasso era simplesmente grande demais. No entanto, ao analisar os dados, é possível perceber que, nos últimos 500 anos, um período insignificante ao considerar a idade da raça humana, o tamanho da população aumentou de 500 milhões para 7,7 bilhões de pessoas. E, por mais intrigante que isso possa parecer, o planeta Terra nunca esteve tão capaz de sustentar essa lotação em toda a sua história como é hoje.

Argumentarei que o mecanismo que permitiu essa transformação radical foi o nascimento gradual do capitalismo e sua disseminação na maioria das sociedades do mundo. Para não entrar no abismo do equívoco, usarei a definição da Escola Austríaca de Economia para definir o capitalismo: o capitalismo é um sistema econômico em que agentes privados, protegidos pelo direito à propriedade privada, podem engajar no processo de livre comércio e produção de um bem com um objetivo final de alcançar uma maior satisfação para com a própria vida. (Mises, 2017). Ao olhar para a história, podemos ver que essa definição é ampla; e portanto, argumentarei que o capitalismo é o resultado de um processo de evolução na maneira como os bens são produzidos que, em última análise, permitiram o crescimento populacional dos tempos modernos.

Para entender por que o crescimento populacional foi tão limitado durante a era pré-capitalista, examinaremos as teorias de Thomas Malthus. Thomas Malthus foi um influente economista britânico do século XVIII que argumentou que todas as sociedades estavam fadadas a um ciclo interminável de crescimento e declínio populacional. Essa teoria foi baseada no que ele chamou de Lei do Retorno, onde afirmava que toda sociedade tem um tamanho óptimo populacional dependente de dois ou mais fatores de produção. Os dois fatores de produção malthusianos eram terra e trabalho, e o tamanho da população era uma função de ambos; portanto, o tamanho da população era um produto da produção que uma certa quantia de labor poderia oferecer em uma determinada quantia de terra. Como a terra não podia se expandir, o trabalho precisava ser mais produtivo para permitir que uma população crescesse de forma sustentável. E é exatamente essa revolução produtiva que caracteriza a era do capitalismo. (Hoppe, 2015). O professor de História da Universidade Cornell, Louis Hyman, resume a mudança no mundo malthusiano depois do capitalismo: “se você observar o tipo de vida material da Roma antiga, será muito semelhante à vida material do século XVII. Houve muita pouca mudança. E assim, quando falamos de capitalismo, estamos falando de uma ruptura com a própria história, uma ruptura com esse tipo de estase de longo prazo.” (Hyman, 2015).

Antes de começarmos a entender como o capitalismo tornou o trabalho mais produtivo, precisamos ver como a Lei Malthusiana agia em sociedades pré-capitalistas. Desde o início da civilização (com revolução agrícola) até a era das cruzadas, a Lei Malthusiana estava em vigor. Durante esse período, a limitação de quanto a produtividade se desenvolveria deveu-se em grande parte à falta de comércio: a troca de mercadorias em épocas pré-capitalistas, especialmente na Europa Medieval, era quase inexistente pela escassez da circulação do dinheiro, tanto em forma de cheques quanto em moedas. A falta da circulação de dinheiro (moedas eram raras e, quando existiam, pertenciam ao rei ou nobreza) levou a inconveniência da necessidade de pagar por bens, na quantidade e valor exato, com outro bem: e não com um meio de troca comum (dinheiro). Como calcular o valor exato de um bem era uma questão difícil, as pessoas tinham que confiar umas nas outras para liquidar contas com compensações futuras na forma de outros bens ou serviços. O historiador americano, professor Edward Baptiste, ilustra esse ponto refletindo: “Quantas vacas são iguais a uma casa? Quantos pedaços de pano são iguais a uma vaca? As pessoas têm que chegar a algum tipo de acordo. E isso também implica em um tipo de confiança, uma confiança entre vizinhos, por exemplo, ou uma confiança entre parentes.” (Baptiste, 2015). 

A impossibilidade do uso de dinheiro tornava o comércio quase impossível e, enquanto o comércio não pudesse existir em larga escala, indivíduos e famílias não tinham motivos para produzir algo que não fossem consumir. O economista Ludwig von Mises, em seu livro A Mentalidade Anticapitalista, argumenta que o crescimento econômico nunca pode ser alcançado quando todos os bens produzidos são consumidos, cenário este prevalecente nas eras do pré-capitalismo: “A única fonte da geração de bens de capital adicionais é a poupança. Se todos os bens produzidos são consumidos, nenhum novo capital é gerado. Mas, se o consumo se situa abaixo da produção e o excedente de bens recém-produzidos sobre os bens consumidos é utilizado em novos processos de produção, esses processos são a partir daí conduzidos com o auxílio de mais bens de capital.” Uma vez que não havia incentivos para um aumento de produção, devido à falta de comércio, o tamanho da população limitava-se a quanto cada indivíduo/família poderia produzir por conta própria. Como consequência, nenhuma inovação tecnológica pôde ser alcançada pois não havia reinvestimento de capital em melhores meios de produção. (Mises, 2017).

Enquanto o labor não pudesse se tornar mais eficiente devido à falta do acúmulo de capital para ser reinvestido no processo produtivo e a terra não podia aumentar porque sua distribuição se concentrava nas mesmas mãos, a dos senhores feudais, nem a economia nem a população podiam crescer. E quando um acontecia era imediatamente destruído pelo outro. No entanto, toda essa tendência, de falta de comércio, mudou quando a Europa começou a se abrir para o resto do mundo. Quando o processo de colonização europeia começou com os reinos cristãos do Levante durante as cruzadas e, posteriormente, com a colonização do Novo Mundo e da África, a demanda pela troca de mercadorias entre um lugar e outro aumentou exponencialmente. Como resultado da crescente demanda pela troca, novos instrumentos financeiros foram inventados durante o final da Idade Média e o Renascimento. Alguns desses instrumentos foram: letras de câmbio, que facilitaram o comércio de longa distância, diminuindo a inconveniência de transportar ouro físico entre dois ou mais lugares e livros de contabilidade que ajudaram os comerciantes a registrarem suas transações financeiras na forma de débitos e créditos modernos. (Baptiste, 2015). É importante ressaltar que essas inovações foram fortemente impulsionadas pelo fim do feudalismo e da servidão, pois pela primeira vez um certo grau de propriedade privada foi instituído na sociedade europeia. Uma vez que, anteriormente, não havia incentivo ao comércio, porque quase todo o lucro da transação era destinado a um senhor ou aristocrata. (Castaneda, 2006).

O capitalismo, como o conhecemos hoje, no entanto, só surgiria nos próximos dois séculos, após o período de colonização maciça europeia. Esse atraso entre o aumento do comércio e o nascimento do capitalismo ocorreu devido ao fato de que os principais impulsionadores de todo o comércio e o fluxo de bens e capitais eram os Estados. As pessoas comuns ainda estavam presas à mesma instituição feudal de uma sociedade de castas (onde a posição social de uma pessoa é fixa) e, embora o comércio tenha se desenvolvido significativamente, os lucros do fluxo de riqueza entre lugares eram destinados principalmente aos cofres estatais. Como explica Mises: “a preservação dessas instituições feudais (a de uma sociedade de castas) era incompatível com o sistema do capitalismo. Sua abolição e o estabelecimento do princípio da igualdade perante a lei removeram as barreiras que impediam a humanidade de desfrutar de todos os benefícios que o sistema de propriedade privada dos meios de produção bem como os de empresa privada, torna possível”. Assim, é possível concluir que as sociedades nas quais as castas foram abolidas entraram mais rapidamente na era do capitalismo de livre mercado: uma vez que a posição social não é fixa, os indivíduos buscando ter mais sucesso têm incentivos para comercializar, produzir e competir. (Mises, 2017). Enquanto na França, a casta só seria abolida no século XIX com os Códigos Napoleônicos, na Inglaterra e na Holanda uma sociedade protocapitalista fora formada no século XVII, onde havia as primeiras empresas multinacionais financiadas por investidores privados, como as companhias holandesas e inglesas das Índias Ocidentais. (Baptiste, 2015).

Ao finalmente adentrar na era do capitalismo, podemos perceber a importância do livre comércio na elevação o ponto óptimo populacional malthusiano, devido ao seu estímulo para uma maior eficiência de produção. Essa consequência do aumento do livre comércio foi o que o filósofo britânico do século XVIII Adam Smith definiu como o pilar do capitalismo. (Hyman, 2015). Smith argumentava que o comércio permitiu que o homem se especializasse na produção de apenas um bem, e dividisse esta produção em muitas outras pequenas etapas. Este processo foi o que ele chamou de princípio da Divisão do Trabalho. Esse passo revolucionário no processo de fabricação, que permitiu os homens a se especializarem na fabricação de um produto, foi possível pois poderiam trocar os estoques excedentes de sua produção por outros produtos que não produziram. A soma desse processo é de maior qualidade e maior oferta, e portanto, preços mais baixos. De acordo com Smith em sua obra-prima intitulada Inquérito Sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações: “Essa divisão do trabalho, da qual derivam tantas vantagens, não é originalmente o efeito de qualquer sabedoria humana que preveja e pretenda que a geral opulência a que dá ocasião. É a consequência necessária, embora muito lenta e gradual, de uma certa propensão na natureza humana, que não tem em vista uma utilidade tão extensa; a propensão de transportar, trocar e comercializar uma coisa por outra.” (Smith, 2009).

A Divisão do Trabalho, que permitiu ao aumento exponencial da população, teve como maior causa a difusão do livre comércio, onde os indivíduos conseguiram se envolver em um nível maior no processo de troca de mercadorias. No entanto, uma segunda consequência do aumento do livre comércio que permitiu um aumento na eficiência da produtividade, não mencionado por Smith, foi o acumulo de capital. Como dito acima, quando pessoas consomem todos os bens que produzem, o crescimento econômico resultante é zero, uma vez que nenhum capital é investido de volta no processo de produção. E, embora o comércio tenha ocorrido em outras eras, o que caracteriza a era industrial e a adoção mundial do capitalismo é a acumulação de capital investido em bens de produção. De acordo com o economista alemão da Escola Austríaca de Economia Hans Hermann Hoppe em seu livro A Short History of Man: Progress and Decline: “Com a ajuda dos bens de produção, torna-se possível produzir mais por unidade de tempo dos mesmos bens que poderiam ser produzidos com mãos ou produzir bens que não podem ser produzidos com apenas a terra e trabalho. […] No entanto, a produção de um bem de produção (bem de capital) envolve um sacrifício; pois leva tempo para construir um bem de produção e o mesmo tempo não pode ser usado para o desfruto ou consumo de lazer ou outros bens de consumo imediatamente disponíveis.” É quando os seres humanos têm essa noção que o sacrifício de curto prazo de acumular capital (e, portanto, não consumir) será transferido para uma maior eficiência de produção de longo prazo na forma de bens de capital, que finalmente separa as eras capitalista das não capitalistas. (Hoppe, 2015).

A consequência marginal do aumento exponencial do livre comércio na Europa culminou nas revoluções capitalistas de melhor eficiência no processo produtivo, decorrentes tanto da divisão do trabalho quanto da acumulação de capital investido em bens de produção. A divisão do trabalho e a implementação de máquinas, o principal bem de produção, no processo produtivo não só reduziram o tempo de fabricação de um bem, mas também tornaram-o mais barato. Ambas as consequências culminam no aumento da quantidade de bens produzidos e, portanto, em preços mais baixos. Como Mises coloca: “A característica essencial do capitalismo moderno é a produção em massa de mercadorias destinados ao consumo pelas massas”. (Mises, 2017). E, como resultado, o padrão de vida o tamanho da população mundial aumentaram e a Lei Malthusiana não mais assombra a mente das pessoas, porque, devido ao capitalismo, o processo de produção tem e está se tornando a cada dia, mais e mais eficiente.

Referências Bibliográficas 

Baptiste, E. [American C. A. H.-E. P. ]. (2015, May 17). The Mercantile World []. Retrieved from https://courses.edx.org/courses/course-v1:CornellX+HIST1514x+1T2015/courseware/5f4b7670176642199860188d6841e125/91e28775ed9a4d248b7a2fd3b127286e/?activate_block_id=block-v1%3ACornellX%2BHIST1514x%2B1T2015%2Btype%40sequential%2Bblock%4091e28775ed9a4d248b7a2fd3b127286e

Castaneda, C. J. (2006). Capitalism. In J. J. McCusker (Ed.), History of World Trade Since 1450 (Vol. 1, pp. 103-108). Detroit, MI: Macmillan Reference USA. Retrieved from https://link.gale.com/apps/doc/CX3447600072/WHIC?u=avenues_trial&sid=WHIC&xid=bca0d91a

Hoppe, H. H. (2015). A Short History of Man (1st ed., Vol. 1). Auburn, Alabama: Mises Institute .

HOUSTON, R. A. (2004). Capitalism. In J. Dewald (Ed.), Europe, 1450 to 1789: Encyclopedia of the Early Modern World (Vol. 1, pp. 378-382). New York, NY: Charles Scribner’s Sons. Retrieved from https://link.gale.com/apps/doc/CX3404900169/WHIC?u=avenues_trial&sid=WHIC&xid=346add57

Hyman, L. [American C. A. H.-E. P. ]. (2015, May 17). The Malthusian World []. Retrieved from https://courses.edx.org/courses/course-v1:CornellX+HIST1514x+1T2015/courseware/5f4b7670176642199860188d6841e125/ad9afa53fe3e43638ab60950a446f109/?child=last

Mises, L. V. (2012, November 12). Capitalism. Retrieved April 22, 2020, from https://mises.org/library/capitalism

Mises, L. V. (2017). A Mentalidade Anticapitalista (3rd ed., Vol. 1). São Paulo , Brasil : LVM Editora.

Smith, A. (2009, February 28). An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations by Adam Smith. Retrieved April 22, 2020, from https://www.gutenberg.org/files/3300/3300-h/3300-h.htm

2 Replies to “Capitalismo e o Mundo Malthusiano”

  1. Texto muito oportuno para enxergarmos o período atual com um olhar mais dinâmico inclusive do ponto de vista da sustentabilidade pelo viés da economia ambiental. Muito bom!! Vamos discutir alguns pontos em breve, preciso apreender e compartilhar um outro olhar.

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