Teorias Políticas de Nicolau Maquiavel

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Escrito por : Antonio Auriemo

Teorias Políticas de Nicolau Maquiavel

Nicolau Maquiavel foi um dos teóricos políticos mais importantes de toda a história da civilização ocidental. Nascido em Florença, Itália em 1469, Maquiavel, através de vários ensaios, como peças e artigos, introduziu um conceito distinto de líder ideal, contradizendo fortemente as crenças da igreja católica de um governante amável e piedoso: ele argumentou que a eficácia, medida pelo sucesso do resultado de suas ações, é mais valioso na política do que a moralidade dos meios. Maquiavel, durante grande parte de sua carreira, tornou-se um inimigo não apenas da Roma Papal, mas também foi torturado e perseguido pelos líderes de sua própria cidade. Esse cenário altamente caótico, instável e imprevisível de Florença foram os pilares dos ideais de Maquiavel. (Stock, 2014). 

Neste artigo, vamos rever a obra-prima de Maquiavel, intitulada O Príncipe. Escrito em 1513 e dedicado ao então novo governante de Florença da época Lorenzo de Medici, O Príncipe apresenta um manual de como um governante pode otimizar suas chances de se manter no poder. O principal objetivo de Maquiavel é retratar a política em sua forma mais crua, onde ele se afasta da ética subjacente da civilização ocidental para discutir o que realmente é ou não efetivo no jogo do poder. “Mas, sendo minha intenção escrever algo que seja útil para quem o apreende, me parece mais apropriado acompanhar a verdade real do assunto do que a imaginação dele; muitos imaginaram repúblicas e principados que de fato nunca foram conhecidos ou vistos, porque a maneira como se vive está tão distante de como se deve viver.” (Machiavelli, 2017). O Príncipe é um livro incrivelmente valioso pois sua abordagem utiliza princípios do método científico isto é, evidência, hipótese e tese, fazendo com que suas idéias permaneçam relevantes até o presente.

É possível perceber o uso de um proto método científico de Maquiavel quando analisou as histórias dos imperadores Severus, Antonius e Commodus. A hipótese inicial, estabelecida pelo autor, era de que um príncipe, ao lidar com inimigos, deve sempre evitar o ódio, o maior combustível para o surgimento de conspirações e traições vindas de dentro do Estado. Analisando as evidências, Maquiavel viu que Antonius e Commodus eram excessivamente cruéis ao violar indevidamente a propriedade de muitos de seus súditos. Os ideais de Maquiavel inteiramente baseados na eficácia é clara pois o argumento apresentado julga os resultados dos fins, não a moralidade dos meios ao afirmar que seria insensato um príncipe violar a propriedade de seus cidadãos se deseja manter o poder, mas não que é antiético. “No entanto, um príncipe deve inspirar o medo de tal maneira que, se ele não obter amor, evite o ódio; porque ele pode suportar muito bem ser temido enquanto não é odiado, o que sempre será contanto que ele se abstenha da propriedade de seus cidadãos, mas […] acima de tudo, ele (o príncipe) deve manter as mãos afastadas da propriedade dos outros, porque os homens esquecem mais rapidamente a morte de seu pai do que a perda de seu patrimônio.” (Machiavelli, 2017).

Como podemos ver, o autor aconselhou o governante evitar a qualquer custo causar animosidades para com seus súditos, mas nunca mencionou o direito à propriedade. No seguinte trecho, Maquiavel explicou as conseqüências do nível desmedido de crueldade do imperador Antonius: “No entanto, a ferocidade e as crueldades de Antonius eram tão grandes e inéditas que, depois de incontáveis ​​assassinatos, ele matou um grande número de pessoas de Roma e de Alexandria. Ele foi odiado pelo mundo inteiro […] a tal ponto que foi assassinado no meio de seu exército por um centurião.” O autor argumentou que ambos os imperadores negligenciaram o quão severas seriam as conseqüências da violação de propriedade. Sua hipótese se provou correta uma vez que os dois imperadores acabaram mortos como produto de conspirações causadas por uma medida descuidada de crueldade, que culminou no ódio geral do público. Embora o autor afirme que ocasionalmente é necessário que governantes sejam cruéis para manter a ordem e a estabilidade política, este ativo não pode ser usado a tal ponto que evoque o ódio. (Machiavelli, 2017).

Em busca de uma conclusão para o dilema de qual seria a melhor maneira de um príncipe agir, o autor analisou a história do outro personagem, o imperador Severo. Maquiavel analisou a história de Severus, concentrando-se em como ele subiu ao trono e como ele lidou com seus inimigos. Severo primeiro convenceu o exército da Esclavônia (parte da atual Croácia) da qual ele era capitão a marchar em direção a Roma e vingar a morte do imperador Pertinax; quando chegou à capital, o povo o viu como um libertador do vagaroso imperador Julián (imperador romano da época), e o Senado por temor o elegeu imperador. Ao subir à posição de imperador Severus adquiriu dois inimigos: o exército ocidental e o exército asiático. Decidiu então que não poderia enfrentar os dois inimigos de uma só vez; o imperador escreveu ao líder do exército ocidental dizendo que ele lhe enviaria o título de César e que os dois governariam em conjunto. Quando derrotou o exército asiático, ele, sob as falsas desculpas de ter sido traído, atacou e matou o líder ocidental. (Machiavelli, 2017).

Maquiavel, analisando as atitudes de Severo, apontou que um líder deve agir com extremo cuidado e astúcia a fim de adaptar-se ao movimento do inimigo e para ilustrar seu argumento criou uma metáfora extremamente interessante: “Você deve saber que existem duas maneiras de lidar com inimigos, uma pela lei e outra pela força; o primeiro método é apropriado para os homens, o segundo para as bestas; […] é necessário que um príncipe entenda como se valer da besta e do homem. Portanto, um príncipe, sendo obrigado a adotar a besta conscientemente, deve escolher a raposa e o leão; porque o leão não pode se defender contra armadilhas e a raposa não pode se defender contra lobos. Portanto, é necessário ser uma raposa para descobrir as armadilhas e um leão para aterrorizar os lobos.” Ao analisar as ações de Severus, o autor conclui que ele agiu equilibrando a besta e os homens dentro de si, enquanto Antonius e Commodus agiram descuidadamente, negligenciando os efeitos do ódio e da violação de propriedade. (Machiavelli, 2017).

Para entendermos as aplicações práticas das teorias de Maquiavel nos dias atuais, analisaremos como o presidente russo Vladimir Putin, provavelmente o governante mais controverso do planeta, aplicou os princípios de Maquiavel para perpetuar o poder. O primeiro princípio aplicado por Putin quando se tornou presidente após a renúncia de Boris Yelsky, foi destruir a oligarquia anterior e estabelecer uma de sua autoria. Maquiavel argumentou que a maneira de manter um Estado que já vive sob um certo grau de liberdade (caso de Rússia de Yelsky) é: “estabelecendo nele uma oligarquia que se manterá amigável a você. Porque essa, sendo criada pelo príncipe, sabe que não pode resistir à sua amizade e interesse, e faz o máximo para apoiá-lo”.7 Putin, logo após apanhar o poder, perseguiu a velha oligarquia dos mafiosos russos exploradores de petróleo porque sabia que rivalizariam com ele pelo poder. Com isso em mente, Putin estabeleceu uma oligarquia de sua própria autoria composta pelos antigos membros da KGB (também chamados Siloviki) que se sentiram negligenciados pelas experiências democráticas dos ex-presidentes Gorbachev e Yelsky. (Spitzcovsky, 2019).

A segunda estratégia de Maquiavel usada por Vladimir Putin foi a centralização de poder. Segundo Jaime Spitzcovsky, professor de Geopolítica da plataforma Minq: “Putin explora o fato de que a sociedade russa está acostumada à centralização (regimes czaristas e comunistas) e aniquila líderes regionais”. (Spitzcovsky, 2019). Essa é a estratégia pregada por Maquiavel quando ele compara o Império Otomano, um Estado fortemente centralizado, e o Reino Francês, um estado feudalista: “Os estados (Estados centralizados) que são governados por um príncipe e seus servos consideram seu príncipe com mais respeito, porque em todo o país não há quem seja reconhecido como superior a ele […] O contrário acontece em reinos governados como o da França (Estado descentralizado), porque é possível entrar facilmente lá conquistando algum barão do reino, pois sempre encontramos descontentes e desejo de mudança.” (Machiavelli, 2017). O exemplo mais famoso em que o presidente russo se beneficiando dessa estratégia é na ocasião da Guerra Civil ucraniana de 2014, onde a Rússia anexou parte do país para garantir domínio e liderança na região, e, por consequência, a popularidade de Putin aumentou tremendamente.

Em suma, pode-se dizer que o presidente Putin é o tipo de líder que Maquiavel admiraria: ele poderia tirar proveito da besta e do homem dentro dele, para manipular a política russa e agora permanecer no poder  por mais tempo do que qualquer outro governante russo. Ele usou a “besta”, como vimos acima, por meio da centralização de poder na guerra com a Ucrânia e na perseguição dos oligarcas do petróleo; também usou o “homem” ao apresentar-se como líder forte e eficaz e oferecendo aos russos o que nunca haviam tido nos últimos 30 anos: estabilidade. Quando questionado sobre a importância de projetar força, o presidente Putin respondeu: “Não é importante projetar força, é importante manifestar força.” (Kelly, 2018). Putin é ao mesmo tempo a raposa e o leão quando estabeleceu seu novo contrato social; ele limitaria a democracia ao seu máximo, mas daria ao povo um líder forte e virtuoso (terminologia de Maquiavel). Com mais de 70% do índice de aprovação, Putin alcançou, 500 anos depois de O Príncipe ter sido escrito, o que Maquiavel afirmou ser impossível: ser amado e temido ao mesmo tempo. 

Neste penúltimo parágrafo, abordarei brevemente a questão do termo maquiavélico, que usualmente se refere à crença de que “os fins justificam os meios”. No entanto, a idéia de que Nicolau Maquiavel era inerentemente malévola desconsidera que seus pensamentos foram influenciados tanto pela sua experiência pessoal, de uma Florença politicamente instável, mas também pelo seu desejo de ganhar fama e reconhecimento perante seu novo governante, Lorenzo de Medici. A interpretação do filósofo iluminista Baruch Spinoza afirma que O Príncipe atua como um alerta para que cidadãos saibam as maneiras que podem ser oprimidos e subjugados por governantes tirânicos. De acordo com Alex Gendler, escritor da plataforma TED-Ed: “Maquiavel pode ter escrito um manual para governantes tirânicos, mas, compartilhando-o, ele também revelou as cartas para àqueles que seriam governados. Ao fazer isso, ele revolucionou a filosofia política, lançando as bases para Hobbes e futuros pensadores estudarem os assuntos humanos com base em suas realidades concretas, em vez de idéias preconcebidas.” (Gendler, 2019).

As estratégias de Maquiavel para a perpetuação no poder, apresentadas principalmente em O Príncipe por meio de um proto método científico, mostram que, de fato, o conceito central que ele defende é a eficácia na esfera do poder na política. Como visto acima, seu formato e conteúdo ainda são relevantes hoje, e por isso O Príncipe é considerado uma verdadeira obra de arte. Para os governantes, o conselho do autor é manter o poder, mesmo que algumas atitudes implacáveis ​​sejam necessárias; no entanto, para o público em geral, a mensagem é de que nem sempre é possível ser moral e eficaz na vida: às vezes é necessário escolher entre ambos e, ao fazer isso, os humanos lidam com o mundo como ele é e não como deveria ser.

Referências

Democracia na Teia. (2019, July 7). Diferenças entre a União Soviética e a Rússia do Putin | Jaime Spitzcovsky. Retrieved March 22, 2020, from https://www.youtube.com/watch?v=QxO5w9KE3Sg

Gendler , A., & Cahlon, P. (2019, March 25). What “Machiavellian” really means – Pazit Cahlon and Alex Gendler. Retrieved March 22, 2020, from https://ed.ted.com/lessons/what-machiavellian-really-means-pazit-cahlon-and-alex-gendler#watch

Machiavelli, N. (2017). The Prince (2nd ed., Vol. 3). New York, United States : Amazon Classics.

Machiavelli Writes The Prince : 1513. (2014). In J. Stock (Ed.), Global Events: Milestone Events Throughout History (Vol. 4). Farmington Hills, MI: Gale. Retrieved from https://link.gale.com/apps/doc/ITFCOQ693229074/WHIC?u=avenues_trial&sid=WHIC&xid=bff07394

NBC News. (2018a, March 10). Confronting Russian President Vladimir Putin, Part 4 | Megyn Kelly | NBC News. Retrieved March 22, 2020, from https://www.youtube.com/watch?v=ZETpCefN784

NBC News. (2018, March 11). Watch Megyn Kelly’s extended interview with Russian President Vladimir Putin in Kaliningrad. Retrieved March 22, 2020, from https://www.nbcnews.com/video/watch-megyn-kelly-s-extended-interview-with-russian-president-vladimir-putin-in-kaliningrad-1182806083818

Powell, L. (2020, January 5). Machiavellian Pragmatism – Logan Powell. Retrieved March 22, 2020, from https://medium.com/@loganpowell/what-is-pragmatism-ed85f1e7a46b

Scharfstein, B.-A. (2005). Machiavellism. In M. C. Horowitz (Ed.), New Dictionary of the History of Ideas (Vol. 4, pp. 1325-1328). Detroit, MI: Charles Scribner’s Sons. Retrieved from https://link.gale.com/apps/doc/CX3424300446/WHIC?u=avenues_trial&sid=WHIC&xid=68408386

The Quintessential Mind. (2018, February 24). Philosophy: Machiavelli – A Deep Scrutiny of his Ideas and Tactics. Retrieved March 22, 2020, from https://www.youtube.com/watch?v=sP9VKJaqiN8

The School of Life. (2015, June 19). POLITICAL THEORY – Niccolò Machiavelli. Retrieved March 22, 2020, from https://www.youtube.com/watch?v=AOXl0Ll_t9s&t=7s

One Reply to “Teorias Políticas de Nicolau Maquiavel”

  1. Antonio como sempre sensacional! Aprendi algo que não sabia: que Machiavel utilizava o método científico! A sua analogia com Putin foi brilhante!!
    Um grande abraço e continue me ensinando!!
    Tio Julio

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