Escrito por : Antonio Auriemo

Reflexão Sobre a Crise de 2008

A crise de 2008 é até hoje um tema de intenso debate. Existem duas principais narrativas em relação às causas da crise imobiliária e posteriormente financeiras: contra o livre mercado e a favor do livre mercado. O primeiro adota uma postura mais cética no tocante ao poder de auto regulação do livre mercado e prega por uma maior intervenção estatal na economia: já o segundo defende o laissez-faire, um sistema econômico onde as transações de capital, efetuadas de forma voluntária por indivíduos estão livres de interferência governamental. (Chappelow, 2019). Cada uma dessas correntes de ideologias apresenta opiniões diferentes em relação à participação do Estado na economia e, portanto, ainda são extremamente relevantes nos dias atuais devido a visões diferentes nas abordagens para conduzir a economia. Para entender melhor as diferentes perspectivas, é melhor começar com uma breve explicação sobre o que foi a bolha do mercado imobiliário de 2008.

Os prenúncios da crise de 2008 datam do final dos anos 60, quando o investidor Lew Ranieri criou o revolucionário “título lastreado em hipoteca” (o famoso mortgage-backed security) que para melhor compreensão vamos endereçar como “MBS”. Os MBSs eram títulos criados por bancos, constituídos por milhares de hipotecas individuais onde as propriedades eram usadas ​​como garantia do investimento, e por fim agrupadas e vendidas aos investidores sob a forma de ações. Esses títulos se tornaram imensamente populares quando os investidores começaram a procurar investimentos com taxas de retorno mais altas, uma vez que o rendimento dos títulos do tesouro americano e as taxas de juros estavam em forte declínio desde o início dos anos 2000. Os MBSs também pareciam investimentos seguros, porque, em caso de inadimplência, o credor receberia o imóvel que apresentava forte valorização desde os anos 70. Além disso segundo, o dano causado por uma inadimplência era mitigado pelas milhares de outras hipotecas e, portanto, o risco é muito baixo. (Kagan, 2020). O princípio por trás dos MBSs era um CDO (obrigação de dívida colateralizada), um produto financeiro no qual os bancos comerciais vendem vários ativos individuais a bancos de investimento, que depois os agrupam vendem a investidores individuais. (Tardi, 2020).

À medida que a demanda por MBS aumentava, os bancos, uma vez aproveitadas as oportunidades de empréstimos seguros, começaram a baixar os padrões de aprovação para estes empréstimos: não havia verificação de renda do tomador e as taxas reajustáveis (começam em um nível baixo e depois aumentavam). Essas hipotecas de alto risco foram denominadas hipotecas subprime e já em 2005, compunham a maioria das operações de MBSs no mercado. A bolha realmente começou a inflar quando analisamos as ações de terceiros nas transações dos títulos: em particular a Federal National Mortgage Association (popularmente conhecida como Fannie Mae) e a Federal Loan Mortgage Corporation (popularmente conhecida como Freddie Mac). Essas duas empresas paraestatais asseguravam a saúde do número de empréstimos que os bancos poderiam emitir, através da compra do excesso de hipotecas para que os bancos permanecem dentro do Índice Basileia, que indicava o percentual de empréstimos em relação ao patrimônio líquido de um banco. Portanto, o risco que antes pertencia ao banco (credor) foi totalmente transferido para Fannie e Freddie e a bolha começou a se formar. No final de 2008, quando o governo estatizou por completo as duas empresas, observou-se que juntas elas detinham mais de 50% das hipotecas americanas. (Roque, 2018).

Outro grande problema foi a falha das agências de classificação de risco: a partir de 2003, muitos CDOs, principalmente os MBSs, foram classificados pelas agências de classificação de risco como muito pouco arriscado; as classificações eram todas AAA, o melhor incentivo para mais compras para MBSs compostos quase inteiramente por subprime Bs. Isso aconteceu principalmente porque as hipotecas subprime eram muito novas e ainda tinham taxas de inadimplência baixas o suficiente, uma vez que as taxas de juros eram ajustáveis e aumentavam com o tempo. No entanto, com o passar do tempo, as taxas de inadimplência começaram a subir cada vez mais e, eventualmente, perderam o controle; a bolha estourou e todo o mercado imobiliário entrou em colapso, pouco depois alguns dos mais famosos bancos de investimento como o Lehman Brothers declararam falência. (Ziadi, 2016). 

O problema com as agências de classificação me leva de volta à minha reflexão inicial: as diferenças entre as narrativas do pró e contra o livre mercado. Ambos desesperados por encontrar uma entidade para culpar elaboraram teorias complicadas sobre como o problema foi criado e como solucioná-lo. Em termos gerais, os defensores do livre mercado alegam que o governo não deve implementar nenhuma política fiscal ou monetária adotando o princípio da austeridade, onde deixa a economia se auto-corrigir, sem regulamentações. Os mesmos acreditam que quando há intervenção, haverá conseqüências não intencionais, porém prejudiciais para a rápida recuperação econômica. Os contrários ao livre mercado acreditam que o governo precisa corrigir a economia, aumentando as regulamentações, os gastos públicos e a oferta de moeda para compensar a diminuição dos gastos dos consumidores sempre que a economia está em grande recessão. (Clifford, 2015).

Iniciaremos com uma análise do ponto de vista pró livre mercado. Em primeiro lugar, eles acreditam que a Lei de Reinvestimento Comunitário (CRA), uma política de ação afirmativa (cotas sociais) aplicada por Bill Clinton nos anos 90, pressionou os bancos a conceder empréstimos sem verificação de renda. Em nome de uma maior inclusão racial no setor de empréstimos imobiliários, a lei forçou os bancos a tomar empréstimos cada vez mais arriscados. Com relação às agências de classificação de risco, elas acreditam que o mercado foi tão regulamentado que as três agências existentes Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s criaram um cartel, apoiado pelo próprio Estado, que impossibilitou a entrada de concorrentes novos e mais competentes. Por fim, argumentam que Fannie e Freddie permitiram que os bancos transferissem riscos de maneira prejudicial porque sabiam que o Fed (Federal Reserve – Banco Central) os financiaria. Assim, eles argumentaram que o Fed, aumentando artificialmente a oferta de dinheiro e direcionando-o principalmente para os grandes bancos, após as recessões dos inícios dos anos 2000, causaram bolha imobiliária. (Roque, 2018). 

O ponto de vista contra os livre-mercado baseia-se inteiramente na premissa de que a crise foi causada pela falta de regulamentação. No que diz respeito às hipotecas subprime, eles acreditam que a perda de padrões para conceder empréstimos foi um produto puramente do mercado livre, porque foi assim a forma que o mercado encontrou suprir a alta demanda por MBSs. A opinião contrária do pensamento do livre mercado alega que o problema com as agências de classificação também era um produto do livre mercado, pois os bancos contratariam apenas as agências que dessem a classificação que desejavam; e portanto, um aumento na regulamentação impediria que isso acontecesse. A grande parte em que os dois grupos realmente diferem um do outro é no que diz respeito às atitudes para recuperação econômica uma vez que a crise já está instaurada. Paul Krugman, economista Keynesianista (a favor de intervenção estatal na economia), em um artigo para o New York Times, afirmou sobre a crise de 2008: “É politicamente elegante reclamar contra os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal. Mas agora, o aumento dos gastos públicos é exatamente o que o médico requereu, e as preocupações com o déficit orçamentário devem ser colocadas em espera.” (Krugman, 2008).

No decorrer da crise, o governo dos EUA interveio fazendo empréstimos de emergência para inúmeras grandes empresas, como bancos e fabricantes de automóveis, por meio de um programa chamado TARP (programa de alívio de ativos problemáticos). O governo também realizou uma série de testes de estresse, examinando os balanços, para ver quão saudáveis eram os bancos e fundos de Wall Street, anunciando publicamente quais eram ou não vigorosos. O Congresso também anunciou um projeto Keynesianista para injetar 800 bilhões de dólares na economia através de gastos públicos principalmente em infraestrutura para criar mais empregos. (Valentine, 2017). O governo decidiu adotar uma abordagem mais “contra o livre mercado”, mas é impossível concluir se essa foi a melhor atitude ou não. No entanto, ao estudar as diferentes perspectivas sobre os acontecimentos em um mesmo evento, pode-se estar preparado para o que fazer quando surgir uma nova crise.

Referências Bibliográficas  

Chappelow, J. (2020, January 29). Laissez-Faire Definition. Retrieved March 22, 2020, from https://www.investopedia.com/terms/l/laissezfaire.asp

Clifford, J. (2015, September 16). Fiscal Policy and Stimulus: Crash Course Economics #8. Retrieved March 22, 2020, from https://www.youtube.com/watch?v=otmgFQHbaDo&list=PL8dPuuaLjXtPNZwz5_o_5uirJ8gQXnhEO&index=8

Kagan, J. (2020, March 2). Understanding Mortgage-Backed Securities (MBS). Retrieved March 22, 2020, from https://www.investopedia.com/terms/m/mbs.asp

Krugman, P. (2008, October 21). Krugman On The Financial Crisis And Public Spending. Retrieved March 22, 2020, from https://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=95929699

Roque, L. (2018, August 17). Como ocorreu a crise financeira americana. Retrieved March 22, 2020, from https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1696

Tardi, C. (2020, March 20). Collateralized Debt Obligation (CDO) Definition. Retrieved March 22, 2020, from https://www.investopedia.com/terms/c/cdo.asp

Valentine, R. (2017, November 13). Getting a grip on the Great Recession. Retrieved March 22, 2020, from https://newsela.com/read/lib-2006-global-financial-crisis

Zaidi, D., Wang, M., Hall, K. G., & Fitzgerald, A. (2016, March 19). The Indisputable Role of Credit Ratings Agencies in the 2008 Collapse, and Why Nothing Has Changed. Retrieved March 22, 2020, from https://truthout.org/articles/the-indisputable-role-of-credit-ratings-agencies-in-the-2008-collapse-and-why-nothing-has-changed/

3 Replies to “Reflexão Sobre a Crise de 2008”

  1. Antonio, mais uma vez simplesmente fantástico!! Claro, objetivo é sucinto. Um ótimo timing para este artigo. Parabéns!!!!! Julio

  2. Muito bom Tonio, parabéns. Nao é assunto simples. Mas diga-me, meu amigo anarco-capitalista, o que vc teria feito se vc fosse o Chair da Fed hein??!! (intervenção ou laissez faire) 😬

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