Escrito por : Antonio Auriemo

A tentativa de um novo Brasil

As invasões holandesas no Brasil são vistas como motivo da formação da identidade nacional brasileira, onde pela primeira vez negros, índios e portugueses se aliaram pelo mesmo fim. A versão romantizada da história alega que na Batalha de Guararapes, onde as três etnias de fato se aliaram, o sentimento de identidade e patriotismo teria sido despertado pela primeira vez no Brasil. A junção das três etnias, entretanto, teve um longo percurso que começa muito antes e por sua vez culmina na emblemática batalha. Este texto tem o objetivo de percorrer os caminhos deste período histórico para entender o por quê da aliança entre portugueses, índios e negros que resultou na expulsão dos holandeses do Brasil.  

Os conflitos travados de 1624 a 1626 em Salvador pelos portugueses e holandeses foram apenas uma ponta do iceberg que foram as lutas entre a União Ibérica (união que se deu após junção da coroa de Portugal e Espanha) e a República Neerlandesa. A  Holanda na luta pela independência, após décadas de sofrimento sob o domínio espanhol, enxergou nos domínios portugueses, sobretudo o Brasil, uma alavanca à consolidação de sua soberania e ao status de potência europeia. As guerras luso-holandesas foram batizadas pelo historiador inglês Charles Boxer como a real “Primeira Guerra Mundial”, uma vez que os conflitos se deram nos quatros continentes do globo. 

Com o horizonte coberto pelas invasões holandesas em territórios portugueses no Brasil, na África e na Ásia, seria difícil de acreditar que Portugal e Holanda já foram grandes aliados. Previamente a 1580, ano da formação da União Ibérica, lusitanos e neerlandeses mantinham uma relação amistosa de carácter comercial e religioso, uma vez que a Holanda distribuía grande parte do açúcar brasileiro pela Europa e tinha, assim como Portugal, uma importante comunidade judaica. Portanto, ao resumir a guerra luso-holandesa o escritor Laurentino Gomes explica: “Os holandeses lutaram durante oitenta anos contra os espanhóis e como preço pela União Ibérica, os portugueses acabariam enrodilhados no turbilhão dos acontecimentos.”  

Com o fracasso da investida em Salvador, a WIC (Companhia Holandesa das Índias Ocidentais) preparou-se desta vez uma invasão em massa em Pernambuco, uma das mais ricas capitanias do Brasil colônia. Em fevereiro de 1630, uma frota de 67 navios com mais de 7000 homens comandados pelo almirante Hendrick Corneliszoon Loncq conquistou a cidade de Olinda. Apesar da considerável força bélica, os portugueses, sob comando do governador Matias de Albuquerque resistiram entrinchados em Recife pelos próximos dois anos, quando do envio de uma nova esquadra de 16 navios enviados pela WIC. Em 1634 os holandeses já ocupavam uma área de onde hoje é o estado do Rio Grande do Norte até o Sul de Pernambuco.

Em 1636 foi nomeado a governador do Brasil holandês o calvinista conde Maurício de Nassau. Séculos após o final da ocupação holandesa Maurício de Nassau viria a tornar-se uma figura icônica da história do Brasil. Nassau foi um dos muitos personagens brasileiros que passaram pelo chamado revisionismo histórico, que tenta alterar o passado para que a história se adeque à sua narrativa do presente. Apesar de hábil estrategista militar e político, o conde de Nassau não era um humanista que visava o desenvolvimento intelectual do Brasil, como é retrato atualmente. Esta narrativa anacronista reproduzida roboticamente desconsidera e apaga o fim para qual o conde mais se empenhou durante seu governo: o monopólio do tráfico de escravos.  

Em seu primeiro relatório como governador, enviado à Holanda em 1638, Nassau dizia: “Necessariamente deve haver escravos no Brasil […] é muito preciso de todos os meios apropriados-se empreguem no respectivo tráfico na costa da África.” O conde foi provavelmente um dos primeiros holandeses a dar-se conta do seguinte fato: o Brasil, cuja a principal atividade econômica era a do plantio de cana de açúcar, não se sustentaria sem a mão de obra cativa, cujo o monopólio do tráfico, até o momento, pertencia inteira e exclusivamente aos portugueses. Com isso em mente, o professor Dirk Kruijt, brasilianista e estudioso da América Latina, em artigo conta: “No Brasil, os holandeses se interessaram pelo comércio de escravos. Já em 1630, logo perceberam que a produção de açúcar precisava de um suprimento constante de cativos da África.”

Nassau, logo que tomou posse, enviou uma esquadra para capturar o Forte de São Jorge da Mina, importante entreposto português de escravos localizado na Costa do Ouro. Em 1641, foi enviada outra expedição, essa de proporções maiores de 21 navios e 3000 homens, para a tomada de Luanda e Benguela, cidades na colônia portuguesa de Angola, que fornecia mais da metade do número de cativos ao nordeste brasileiro. No mesmo ano a WIC atingiu seu apogeu territorial, que se estendia do Maranhão a Sergipe no Brasil e São Jorge da Mina e Angola na costa da África. 

O futuro de sucesso da Nova Holanda parecia certo, a WIC conseguira sacudir fortemente os dois pilares de sustentação de Portugal, o tráfico de escravos e a produção de cana de açúcar. Entretanto, quando olhamos os números, a história parece ter sido diferente: durante 25 anos de ocupação holandesa os números de importação de cativos foram apenas a metade quando comparados aos 25 anos anteriores. Os portugueses, que controlavam todas as etapas do ciclo escravagista em suas colônias da África, quando da conquista do litoral pelo holandesas, se refugiaram no interior. Deste lugar, manipulavam junto às autoridades africanas, chamados de Sobas, para limitar a oferta de escravos aos portos.

Era a primeira grande perda da Nova Holanda, cujo a dificuldade de importação de escravos fez com que o preço dos cativos disparassem no Brasil. O fator que selaria a inimizade entre fazendeiros e comerciantes para com os holandeses, entretanto, apesar do alto impacto econômico, é derivado muito mais de uma diferença cultural entre protestantes e católicos. O historiador Rafael Nogueira em entrevista resume perfeitamente tal diferença: “Haviam modos de vida competindo: o modo de vida holandês que defendia certa liberdade religiosa, mas muito rígido nos negócios; e o modo de vida português que era mais rígido com as questões religiosas e mais tolerante com os negócios.” Essa rigidez quando se tratava de transações de capital culminou na extinção do sistema de crédito no Brasil holandês, que permitia compradores adquirirem bens sem o desembolso do dinheiro a vista, medida essa que prejudicou principalmente senhores de escravos e comerciantes. 

Em 1640, o clima político da Europa também se alterou: os nobres portugueses proclamaram a independência do país e aclamaram D. João IV, o então duque de Bragança, como seu rei. Portugal altamente endividado e ainda em guerra contra os espanhóis, pouco se importou com as perdas territoriais no Brasil, além disso, como troca pela ajuda na guerra contra a Espanha, a Holanda condicionou que os portugueses lhes concedessem o território conquistado no nordeste brasileiro. Este fato, foi o que causou pela primeira vez nos colonos brasileiros um sentimento de pertencimento a terra e dever de protegê-la. Segundo o historiador americano Francis Dutra: “Antônio Teles da Silva, governador geral do Brasil de 1642 a 1647, conspirou clandestinamente para expulsar os holandeses e enviou homens e suprimentos para atingir esse objetivo, principalmente após a partida de Nassau em 1644.”

Começou assim uma movimentação dos próprios brasileiros, motivados pelas perdas econômicas e a gritante diferença cultural, para a expulsão dos invasores holandeses. Financiados muitas vezes pelas autoridades coloniais da época, como o próprio Antônio Teles, insurreições de milícias armadas começaram a ameaçar o poder holandês. Por volta de 1645, os brasileiros haviam já reconquistado a maior parte dos territórios Nova Holanda. Esta, sem ajuda da WIC em contínuo prejuízo devido às perdas com a falta de mão de obra escrava e as baixas na produção de açúcar, reduziu-se a Recife e seus arredores. Afim de enfraquecer o poderio holandês na África, em 1647, o então governador do província do Rio de Janeiro e provavelmente o homem mais rico do Brasil na época, Salvador de Sá, comandou uma frota de 15 navios e 2000 soldados para capturar Angola dos domínios holandeses. 

Em pouco mais de ano aconteceriam duas das principais batalhas entre holandeses e luso- brasileiros. A primeira Batalha de Guararapes em abril 1648, na qual 5 mil holandeses e 3000 brasileiros, portugueses, índios e negros se enfrentaram pelo comando de Olinda, e a segunda em fevereiro de 1649 na qual 3500 holandeses lutaram contra 2200 brasileiros. Nos dois conflitos o Brasil saiu vitorioso tanto nos campos de batalha, quanto no apoio popular, que agora não se sentia mais emocionalmente dependente de Portugal. Segundo Laurentino Gomes: “Foi essa combinação de forças vitoriosas, até então inédita na história brasileira que, em em Janeiro de 1654, aceitou a capitulação dos holandeses ao final das duas batalhas”. 

As vitorias em Guararapes não significariam o fim da guerra: mesmo tendo expressiva vantagem terrestre, os mares brasileiros ainda não haviam conseguido livrar-se da esquadra da WIC. Esta permaneceu na Bahia de Todos os Santos em Salvador fazendo um bloqueio e apreensão de mais de 220 navios portugueses. Para contrapor-se a superioridade naval holandesa, os brasileiros, sob a idealização e o encorajamento do Padre Antônio Vieira, se organizaram novamente: desta vez, em torno da Companhia Geral para o Estado do Brasil. Financiada em grande parte pelos Cristãos-novos (judeus convertidos, detentores do monopólio do comércio de vinho, farinha, bacalhau e azeite, que muito os enriquecera), a nova empresa brasileira enviou à Salvador três grandes frotas com em média 60 navios cada entre 1649 e 1652. Em dezembro de 1653 uma esquadra da Companhia Brasileira de 77 navios bloqueou a saída de Recife ao mar, enquanto defesas brasileiras impediam a fuga por terra. Em janeiro de 1654 as forças luso-brasileiras entraram vitoriosas pelos portões de Recife. 

Era a primeira vez que colonos de diferentes regiões de um vasto território, do Rio de Janeiro até a Bahia, se mobilizaram para um mesmo fim; capitanias que anteriormente as invasões holandesas não se enxergavam como parte de um só Brasil. Portanto, o episódio da organização dos luso-brasileiros para reconquistar os territórios nacionais, mesmo sem ajuda de Portugal, e expulsar o invasor holandês constitui um germe do nacionalismo brasileiro que posteriormente reaparece nos movimentos independentistas no Brasil.

3 Replies to “A Nova Holanda (parte 2)”

  1. Antonio
    Muito bom como sempre!! Aprendi muita coisa que desconhecia: o envolvimento dos holandeses com o mercado de escravos, a sigla WIC (que é igual a sigla da minha empresa Wallerstein Indl & Coml.) e que este movimento despertou por primeira vez a ideia de patria independente.
    Julio

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