A Nova Holanda (parte 1)

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Escrito por : Antonio Auriemo

A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais

A ascensão da Holanda como potência precipitou a mudança de poder político e religioso na Europa: houve o deslocamento de importância da península Ibérica, católica, para o norte protestante. Assim como a VOC (Companhia Holandesa das Índias Orientais) uma outra empresa foi protagonista nessa transição, a WIC em inglês ou Companhia Holandesa das Índias Ocidentais em português. A Holanda, além de concentrar seus esforços em controlar os domínios portugueses do Índico, também mirou sua artilharia nas possessões lusitanas do Atlântico: o Brasil. 

Ao contrário da Inglaterra, país protestante em guerra com a Espanha (e agora Portugal, devido a união das coroas), cujo o Estado financiava piratas para saqueavam galeões repletos de ouro espanhol vindo das Américas, os Holandeses tinham um sistema de obtenção de lucro além-mar muito mais organizado. Apesar da chegada tardia, a Holanda estabeleceu-se no comércio do Atlântico com muita força. Assim como a VOC, a WIC serviu também para agrupar expedições concorrentes que desde de 1600 desbravavam a África em busca do cobre. 

O sucesso da VOC, que conseguiu eliminar os portugueses do cenário no Índico e monopolizar os comércio e os meios de produção das especiarias, foi um fator fundamental na criação da WIC. De acordo com o historiador brasileiro Capistrano de Abreu em seu livro Capítulos de História Colonial: “A ideia de uma companhia das Índias Ocidentais se concretizou. Fundada em 3 de junho de 1621, seria similar à Companhia das Índias Orientais no que se refere aos seus objetivos e organização.”

A anexação de Portugal pela Espanha possibilitou também no Brasil, assim como no Índico, um vácuo de poder centralizado. Todas as regiões antes dominadas por Portugal foram fragilizadas com a unificação dos dois países ibéricos e se tornaram alvos ideais para a Holanda. Segundo o historiador americano Robert Levine no livro The History of Brazil: “A união das coroas ibéricas teve o efeito de formar uma nova aliança militar entre Madri e Lisboa, mas também expôs Portugal a novas inimizades, especificamente dos holandeses protestantes, grandes inimigos da Espanha.”

Além disso, o pouco que restara da nobreza portuguesa, depois do massacre da batalha de Alcácer-Quibir (batalha entre portugueses e mouros em 1578), naquelas condições de temperatura e pressão, pouco se importaram com as colônias: seus esforços eram dedicados a restauração da independência da metrópole.

A Espanha visando a proteger suas possessões nas Américas condicionou a assinatura de um tratado de paz com a Holanda a que esta garantisse que não constituiria uma Companhia das Índias Ocidentais para explorar as colônias espanholas. Esse tratado, de certa forma, retardou nascimento da WIC, que só foi comissionada em 1621, depois que “A Trégua dos Doze Anos” foi expirada.

O Stadtholder (então chefe de Estado holandês) Maurício de Orange propôs que criassem a WIC, também com o propósito de desviar a belicosidade da Espanha, que se dirigia a metrópole holandesa, para as colônias do Atlântico. Segundo o escritor Michel van Groesen no livro Amsterdam’s Atlantic: Print Culture and the Making of Dutch Brazil: “O ataque à América significou o desejo dos Generais de Estado, principal órgão político das Províncias Unidas, de aliviar o país da pressão militar espanhola após a primeira fase da Guerra dos Oitenta Anos (guerra de independência da Holanda), de 1568 a 1609,  por ter sido travada principalmente em solo holandês.”

Um dos principais nomes por trás da WIC foi do comerciante belga Willem Usselincx, que vira de perto a riqueza vinda das Américas quando esteve em Açores (território ultramarino lusitano) e em na própria Espanha. Em seu livro Further reflections on the navigation, commerce and trade, and building of the state publicado 1608, Willem ressalta a importância da criação de uma Companhia das Índias Ocidentais para a diminuição do poder espanhol. Segundo Jonathan Israel no livro The Dutch Republic: Its Rise, Greatness, and Fall, 1477-1806, Usselincx acreditava não só na formação de colônias para a criação de um mercado consumidor aos produtos holandeses mas também como oportunidade de formar uma nova sociedade protestante nos trópicos. 

A empresa receberia de antemão, assim como a VOC, um enorme capital estatal de 7.1 milhões de florins neerlandeses (quase 1.4 bilhões de reais). Essa quantia, pouco após, somou-se à de 14 milhões de florins (aproximadamente 2.8 bilhões de reais) roubados de uma flotilha espanhola em Cuba, depois de falha na conquista de Salvador. A WIC também abriu seu capital ao mercado possibilitando a compra de suas ações ao público holandês.

Os acionistas eram representados através de 5 câmaras em Amsterdã, Zelândia, Maas, o Distrito Norte e Frísia. Cada câmara era dirigida por seus próprios próprios diretores, que por sua vez apontavam nomes para um conselho central formado por 19 senhores chamados de Heeren XIX. Reuniões deste conselho se davam em média de 2 ou 3 vezes por ano para decidirem os próximos passos da companhia.

O Primeiro Encontro entre Brasileiros e Holandeses

O Estado holandês, assim como fizera com a VOC quase duas décadas antes, concedeu a WIC um completo monopólio do comércio com o Atlântico, do Cabo da Boa Esperança até o estreito de Magalhães. Apesar da empresa ter um longo legado que se estende desde o atual estado de Nova York ao norte e até Suriname e Angola ao sul, o principal local em que WIC esteve foi o Brasil durante 1630 a 1654.

A escolha pelo Brasil deu-se, não só devido a vulnerabilidade dos estados ultramarinos lusitanos, mas também devido às perdas comerciais absorvidas pela Holanda quando da cessação de Portugal pela Espanha; uma vez que Felipe II tomou controle dos portos portugueses, proibiu-os de vender o açúcar brasileiro aos holandeses que vendiam-no ao norte da Europa.    

Os embates entre holandeses e colonos deu-se antes de 1630, todavia. Em princípios de 1623, a WIC começou a agrupar esforços para a conquista da Bahia que começaria por Salvador, então capital do Brasil. No dia 4 de maio de 1624 uma frota de 26 navios foi avistada da Bahia de Todos os Santos. A resistência, por parte dos colonos e do governador Diogo de Mendonça Furtado foi quase nula, uma vez que os fortes estavam todos em ruínas e não havia soldados para que oferecem relutância pelo solo. Com a invasão dos quase 1400 soldados, grande parte da população abandonou a cidade e estabeleceu-se nos arredores do recôncavo. 

Por um curto período de tempo, a luta se limitou a emboscadas de colonos e nativos para que impedissem os holandeses de saírem da capital. A notícia, entretanto chegou aos ouvidos Matias de Albuquerque, que governava a Capitania de Pernambuco e era o mais próximo na linha de sucessão ao governo do Brasil. Capistrano de Abreu nos apresenta uma versão um tanto quanto romantizada do então donatário: “Matias de Albuquerque trabalhava dia e noite. Ele se recusou a ser carregado em uma rede, como era costume no Brasil. Em vez disso, ele andava a cavalo ou em barcos. E nos barcos ele não se sentava; ele permanecia em pé e assumia o comando. Ele tinha uma memória prodigiosa e entendia as pessoas, mesmo aquelas que ele conheceu apenas uma vez.”

Munições, soldados e armas, vindos de Recife, chegavam pouco a pouco nos acampamentos nos arredores de Salvador. Albuquerque ainda enviou Dom Francisco de Moura, ex-governador do Cabo Verde, com 6 grandes caravelas e 80.000 cruzados em forma de suprimentos adicionais. Os colonos, mesmo que com vantagem pela terra, ainda encontravam-se na mira de canhões dos navios da WIC que ainda bloquearam o acesso ao oceano e portanto, durante pouco mais de 3 meses os holandeses conseguiram segurar os avanços dos luso-brasileiros. 

A estagnação no avanço dos colonos para a reconquista de Salvador, preocupou as autoridades de Madrid, principalmente do Duque de Olivares, então primeiro ministro do reino. Olivares entendia que se não inibisse os avanços holandeses no Brasil, os mesmos poderiam ser potenciais ameaças ao Peru e México, importantes fontes de ouro e prata à Espanha. O rei, Felipe IV escreveu cartas para os mais importantes nomes do império Habsburgo (Espanha, sul da Itália, Portugal e Alemanha), conclamando para que juntassem-se a ele na expulsão dos protestantes do Brasil. De acordo com Capistrano: “A marinha portuguesa, bem como os destacamentos ou armadas do oceano, o estreito, o golfo da Biscaia, as Quatro Vilas e Nápoles reuniram 52 navios de guerra. Mais de 12.000 soldados armados zarparam para o Novo Mundo.”  

Devido a tamanha força bélica a reconquista de Salvador pelas coroas ibéricas decorreu-se sem maiores adversidades, culminando no tratado de rendição dos holandeses assinado em 30 de abril de 1625. Esta foi a primeira expedição armada por parte dos holandeses no Brasil, o que lhes deixaram grandes aprendizados: o Brasil, apesar de ser a principal colônia de Portugal ainda se encontrava em um estado de amplo primitivismo; em primeiro lugar, as defesas armadas das cidades, como os fortes e os poucos soldados estavam ineficazes, devido a sua velhice e o pouco treinamento das minúcias de homens na ativa.

E por ultimo, o governo encontrava-se vulnerável de tal forma, que não soubera mobilizar e preparar o povo para o ataque. Para os holandeses, portanto, este primeiro ataque a Salvador foi o que de certa forma motivou-os a voltarem ao nordeste do Brasil. Da próxima vez, entretanto, viriam com maior poder bélico e maiores ambições.

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