Escrito por : Antonio Auriemo

Neoliberalismo e o Plano Real

Há muito em comum entre a ideologia neoliberal e o Plano Real de FHC. O ‘liberalismo clássico’, idealizado por John Locke no século XVII, ressurgira com uma nova cara no século XX. As idéias de Locke foram adaptadas para fins econômicos, com ênfase na liberdade de mercado, que fica isento de qualquer tipo de intervenção estatal.

O neoliberalismo também está diretamente conectado com termo laissez-faire, que traduzido literalmente do francês significa deixe-o fazer. O conceito do termo é banhado de controvérsias, más podemos identificar um ponto de convergência entre estas inúmeras definições: um sistema econômico onde as transições de capital, efetuadas por indivíduos estão livres de interferência governamental.

Há múltiplos protagonistas do neoliberalismo ao longo do século XX. Entre eles muitos filósofos e economistas como Milton Friedman, Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, e também inúmeros estadistas como Margaret Thatcher e Ronald Reagan, que são hoje mundialmente conhecidos por defenderem uma ampla ou total liberdade econômica.

Introdução concluída podemos voltar ao Brasil. A grande demanda pela instituição de uma nova unidade monetária foi resultado de uma hiperinflação, causada pelo descuido com os gastos públicos desde fins do governo militar. O Brasil desde esta época vinha adotando uma postura de Estado de Bem Estar Social, onde o governo está presente em múltiplas esferas da vida pública.

O país passou a proporcionar à população, além de serviços básicos como saúde, educação e segurança, inúmeros outros benefícios como pensões, e produtos e serviços básicos, como energia elétrica e petróleo por meios de empresas estatais. Os gastos públicos no início do período militar somavam um total de 18% do PIB nominal do Brasil, quando os mesmos deixaram o poder já eram 27%, hoje em dia já somam mais de 45%.      

Os gastos públicos, ao longo dos anos, além de abrirem margem para a corrupção, como vemos hoje em dia, concediam também, regalias para funcionários públicos, resultando em um custo altíssimo para a manutenção do estado. Dentre tais privilégios estão incluídos diversos tipos de auxílios para políticos e juízes, super aposentadorias e benefícios para funcionários de alto escalão de estatais.

O aumento descontrolado da máquina pública não viera sem ônus, entretanto. O dinheiro arrecadado pelos impostos, não fora o bastante para suprir todas as despesas públicas, e portanto, o governo tivera que recorrer à impressão de dinheiro e portanto, a inflação. O governo emitindo mais dinheiro no mercado fez com que seu valor declinasse e consequentemente causou um aumento de preços.

A quantia a mais de dinheiro impressa pelo governo, só chegara nas mãos de uma pequena parcela da sociedade, que eram em sua maioria a alta elite de funcionários públicos. Os trabalhadores da iniciativa privada, pouco se beneficiaram dessa desesperada medida econômica, pelo contrário; como agora o valor da moeda era menor, havia uma necessidade para aumentar os preços de produtos, principalmente produtos básicos, o que fazia os cada vez menos acessíveis à população.

O poder de compra da população tornava se menor à medida que a inflação aumentava, por isso o governo decidiu a recorrer a outra medida econômica: o tabelamento de preços. O tabelamento de preços é uma intervenção estatal na economia geralmente aplicada em estágios avançados de inflação. O ato de ‘tabelar um preço’ nada mais é do que estipular um limite do quanto o vendedor pode cobrar por determinado produto, para assim, impedir a alta dos preços gerados pela inflação.

Como consequência dessa desesperada e desastrosa medida intervencionista aconteceram dois fenômenos: primeiro houve uma escassez de produtos no mercado, pois o custo de produção era geralmente mais alto ou igual a receita da venda; e por último um aumento no preço de outros produtos ainda não tabelados para equalizar as contas causadas pelo prejuízos dos já tabelados.

A medida que o governo visava combater a as consequências geradas pela inflação, ela se tornava pior. De nada adiantaram o plano Collor e a tabelação de preços quando a real causa da hiperinflação, o excesso de gastos públicos, nunca receberá a devida atenção. A equipe de FHC entendia que para combater a inflação era preciso também uma máquina estatal enxuta e portanto o Plano Real foi de certa forma revolucionário, pois além de instituir uma nova unidade monetária e o governo privatizou inúmeras estatais.

Concluído este histórico processo de combate a inflação, é possível identificar algumas consequências; o valor do real, na época, um para um com o dólar, tornou vantajosa a importação de produtos estrangeiros, já que em sua maioria, eram dotados de qualidades melhores do que os nacionais. A alta na importação veio como um baque para a indústria terciária brasileira, que falhou em se modernizar e competir pelo consumidor com a estrangeira. Isso possibilitou, portanto, a ascensão da indústria primária, com um desenvolvimento agrário, que servira na época para suprir as despesas geradas pela alta importação.

6 Replies to “Neoliberalismo e o Plano Real:”

  1. Muito bem argumentado, um belo arranjo efaotsde fatos que fez uma custura fina nesse tecido sociopolítico recente. A narrativa como outras vezes me deixou curioso a cada final de frase em busca da próxima. Um excelente arremesso inicial e ace ao final da partida. Obrigado Antonio pela leitura.

  2. Muito bem argumentado, um belo arranjo de fatos que v. proporcionou uma custara fina nesse tecido sociopolítico e econômico recente. A narrativa como outras vezes me deixou curioso a cada final de frase em busca da próxima.
    Um excelente arremesso inicial e ace ao final da partida.
    Obrigado Antonio pela leitura!

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