A História do Palácio da Quinta da Boa Vista – Museu Nacional

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Escrito por : Antonio

A História do Palácio da Quinta da Boa Vista – Museu Nacional

O incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro, situado no Palácio de São Cristóvão também conhecido como Palácio da Quinta da Boa Vista, ocorrido no dia 2 de setembro de 2018, levou consigo 90% das 20 milhões de obras do acervo. O Museu Nacional era referência para o mundo inteiro nas área das ciências naturais e humanas. Entretanto, algo deixou de ser mencionado pela mídia: o valor histórico do edifício. Isso nos mostra o quão carente estamos de uma valorização do conhecimento histórico. Este texto tem como objetivo mostrar a história do Palácio da Quinta da Boa Vista e como essa história é importante para a história do Brasil.

O terreno onde hoje está o Palácio da Quinta da Boa Vista fazia parte de uma grande fazenda de padres Jesuítas, onde catequizavam índios Tupinambás, Temiminós e Tamoios. Após a expulsão dos Jesuítas do Brasil, em 1759, pelo Primeiro Ministro português Marquês de Pombal, o terreno ficou vago. Sabe-se que no ano de 1808 durante a vinda da Família Real portuguesa ao Brasil, a fazenda pertencia a um comerciante de escravos chamado Elias Antonio Lopes. Lopes, para muitos historiadores, era possivelmente o homem mais rico do Rio de Janeiro naquela época. Ele, em 1803, erguera um lindo palacete no topo da mais alta colina dentro da fazenda, que tinha vista para a Baía de Guanabara. Daí o nome ‘Quinta da Boa Vista’.

Em 1808, na cidade do Rio de Janeiro, havia cerca de 60 mil habitantes. Somente em uma madrugada, a do dia 29 de novembro de 1807, durante a fuga da corte portuguesa do Exército Imperial de Napoleão, vieram 15 mil pessoas para a capital Carioca. Imagine que você mora na cidade de São Paulo, que tem 13 milhões de habitantes; repentinamente, do dia pra noite, aparecem mais 3,25 milhões de pessoas que teriam total autoridade sobre você. Essas pessoas poderiam invadir sua casa e tomá-la para si mesmas. Foi isso o que aconteceu no dia 7 de março de 1808 no amanhecer do Rio de Janeiro.

Eram tantas pessoas que o governo teve que desalojar parte dos moradores da cidade; oficiais chegavam a frente das casa com pincéis e tinta e escreviam nas portas a marca ‘P.R.’, que significava Propriedade Real, más fora logo interpretada, pelo bom humor Carioca, como, ‘Ponha-se na Rua’ ou ‘Propriedade Roubada’.

Lopes enxergou ali uma oportunidade de impressionar o novo monarca que desembarcava na capital. O local previsto para que D. João, o Príncipe Regente de Portugal, morasse era o então Paço Real. O Paço fora construído na década de 1740 e desde 1763 abrigava o Vice Rei do Brasil. O edifício era situado no centro da cidade, onde hoje é a praça XV de novembro; era uma residência pequena e apertada, nada adequada para acomodar a realeza portuguesa. Na primeira cerimônia do ‘beija à mão’ (cerimônia essa em que a população poderia falar com o monarca e requisitar algo), Lopes ofereceu seu casarão ao Príncipe Regente. O comerciante sabia que a casa não sairia de graça para D. João; após ceder a Quinta, Lopes foi agraciado comendador da Ordem Militar de Cristo e nomeado tabelião e escrivão da Vila de Parati.

D. João foi morar na Quinta com o seu filho mais velho D. Pedro, enquanto a rainha Carlota Joaquina morava com as infantas no centro da cidade no Paço Real. Essa separação já ocorria desde antes da vinda ao Brasil, pois o casal jamais se dera bem. Os arredores da Quinta eram cercados por manguezais, o que fazia o acesso da cidade ao Palácio de São Cristovão ser extremamente difícil. Em 1810 D. João fez melhorias nos terrenos em volta da casa: as obras enxugaram os mangues e no lugar construíram alamedas com iluminação a óleo de baleia.

Já em 1817, para o casamento do Príncipe D. Pedro com a Arquiduquesa Austríaca D. Leopoldina, foi construída a ‘ala sul’ do Palácio. No ano seguinte, foram projetados pelo arquiteto inglês John Johnson, inspirados no Palácio de Ajuda em Portugal, mais quatro torres em estilo neoclássico e um portão magistral que podemos ver até hoje, pois este, felizmente, não foi atingido pelo incêndio já que se encontra no Jardim Botânico. Em 1830, no final do reinado de D. Pedro I, o imperador ordenou a construção de um chafariz, um pequeno jardim, dormitórios, um escritório e uma sala de estar, todos arquitetados pelo francês José Pedro Pezarat. Entretanto, as obras foram interrompidas quando da abdicação do monarca em 1831, e só retomadas em 1841, ano da coroação de D. Pedro II.

Na segunda metade do século XIX, o Palácio de São Cristóvão receberia muitas inovações tecnológicas da Revolução Industrial, devido às muitas viagens para a Europa e para os EUA, do novo imperador, D. Pedro II. Em 1852, foi fundada a primeira linha de telégrafo do Brasil e a segunda do mundo, que ligava a Quinta ao Ministério da Guerra. Depois, em 1858, foi inaugurada a primeira ferrovia do Brasil, que partia de São Cristóvão a Petrópolis, lugar preferido do imperador para passar o verão. Na mesma época, Mario Bragaldi ficou encarregado de pintar a Sala do Trono e a Sala dos Embaixadores. Em 1876, o paisagista francês Auguste Glaziou em colaboração com o reflorestador da Floresta da Tijuca projetaram os jardins do Palácio, em estilo inglês (que hoje é o Parque Público da Quinta da Boa Vista). Algumas de suas características são as alamedas, as pontes, os rios, as cascatas, os lagos e as grutas, que se tornaram o lugar predileto de passeio da Princesa Isabel.

O Palácio continuará sem drásticas mudanças até a Proclamação da República; quando a família dos Bragança (a família imperial do Brasil) foi obrigada a deixar o país; os bens e imóveis presentes na Quinta foram leiloados. Dois anos após o 15 de Novembro (data da Proclamação da República), o Palácio de São Cristóvão foi sede da Primeira Assembleia Constituinte Republicana. Depois disso, em 25 de maio de 1900, o prédio abrigou o Museu Nacional, que fora inaugurado em 1818 em outra sede – no Paço Real, depois denominado Paço Imperial.  

O Museu foi referência mundial nas áreas das ciências naturais e, mais tarde, nas ciências humanas. Contudo, desde 1958, já vinham aparecendo denúncias sobre a má preservação e a falta de seriedade na administração por parte da UFRJ. O incêndio no Palácio nos força a fazer uma reflexão sobre o quão desvalorizadas nossas referências históricas são. É importante que valorizemos nossa história, nosso patrimônio e nossas origens, para que um novo desastre como esse não se repita.

N.A.: Um obrigado ao meu avô por ter me levado ao Museu 3 meses antes do incêndio.

12 Replies to “A História do Palácio da Quinta da Boa Vista – Museu Nacional”

  1. Muito bom Antonio , adorei conhecer a história do nosso querido museu . Parabéns !! Sempre leio suas publicações ! 😊

  2. Excelente Antônio! Muito oportuno, de fácil leitura, com muitas informações e ótimas reflexões.

  3. Parabéns, Antônio. Vc conseguiu contextualizar na história do Brasil as raizes de um fato atual que deveria mesmo levar a refletir sobre o descaso com que tratamos nosso passado. Infelizmente não tive, como vc, o privilégio de conhecer o Museu Nacional antes do incêndio, mas seu texto gera muita curiosidade de conhecer esse prédio que tanta história tem a contar. Renata

  4. Que relato mais rico. Foi uma linda viagem a outros tempos. Adoraria ter visitado o palácio com você e seu avô antes do triste incêndio. Obrigada por compartilhar tanto conhecimento!

  5. Adorei o texto Antonio, uma história gostosa de ler! Gostei muito dos fatos históricos também. Eu infelizmente não cheguei a a conhecer. Obrigada por compartilhar!

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