Escrito por : Antonio Auriemo

O Grito do Ipiranga

Muitos historiadores concordam que, ao proclamar a independência, no dia 7 de setembro de 1822, D. Pedro não estava com roupas de gala, montado em um cavalo, junto a uma grande comitiva, como é retratado no quadro de Pedro Américo, pintado em 1888. O quadro, encomendado por D. Pedro II, foi pintado quando a monarquia brasileira já encontrava fragilizada devido a Abolição de Escravatura; por isso a demanda de um quadro como tal, para que espírito monárquico continuasse vivo sobre a figura do Primeiro Imperador.

No dia 13 de Agosto, o então príncipe regente D. Pedro partira do Rio de Janeiro a São Paulo, para apaziguar o embate político; o governo da província favorável à independência havia sido destituído por representantes fiéis a Lisboa. Durante sua viagem, o príncipe decidiu por inspecionar os fortes da cidade de Santos, onde Portugal poderia vir a tentar uma investida militar para reconquistar o Sul do país (da mesma forma que fizera na Bahia). D. Pedro, dois dias antes do grito, levando em sua comitiva o Padre Belchior Pinheiro de Oliveira e Francisco Gomes da Silva, mais conhecido como “o Chalaça” (o brincalhão), saiu de Santos para Cubatão, onde estariam preparadas montarias para que o príncipe subisse a serra de volta a São Paulo.

D. Pedro passou uma noite na cidade e junto a sua comitiva partiu de Cubatão, as 5 da manhã do dia 7 de setembro rumo a capital da província. Primeiro teriam que subir a serra pela calçada do Lorena e depois percorrer mais seis horas no planalto paulista. A calçada do Lorena era uma estrada que havia sido criada por índios tupi e usada por jesuítas e bandeirantes para percorrer a serra. Tinha oito quilômetros de comprimento, 3 metros de largura e um total de 180 curvas em zigue-zague que haviam de ser percorridas em cima de mulas. “Ouviam-se o clac-clac das patas feridas dos animais nas pedras e avistam-se as mulas no esforço de se segurarem na ladeira, parecendo arrastadas pelos pesados fardos que carregavam”, apontou o americano Daniel P. Kidder ao passar pela estrada 17 anos depois. Foi uma viagem extremamente penosa para o príncipe, que já vinha sofrendo de problemas intestinais e tinha que parar com frequência para se aliviar em moitas de plantas tropicais do litoral.

Devido a uma das paradas para atender suas necessidades fisiológicas, D. Pedro mandou que parte de sua guarda de honra o esperasse 600 metros adiante, onde ficava uma pequena venda e o riacho do Ipiranga. Em meio a seus problemas intestinais, três mensageiros apareceram trazendo notícias da capital. O primeiro era Francisco de Castro Canto e Melo, irmão da futura Marquesa de Santos, que também havia descido a Santos com o príncipe, mas fora despachado com ordens de avisá-lo de alguma notícia vinda da capital. Os outros dois eram Paulo Bregaro e António Ramos Cordeiro, ambos haviam saído do Rio de Janeiro 5 dias antes, trazendo cartas do ministro José Bonifácio e da princesa Leopoldina. Bregaro percorrerá 500 quilômetros em 5 dias, uma distância impensável, levando em consideração a época e o curto periodo de tempo.

As mensagens infatizavam a iminente ruptura entre Brasil e Portugal. As carts avisavam que haviam chegado de Lisboa ordens que anulavam todo o avanço que o Brasil adquirira sob o comando de D. Pedro e D. João; o país voltaria a ser colônia. Além disso, o ministro Bonifácio seria preso, devido a seu apoio à independência e o príncipe seria novamente ordenado a voltar à Europa, para concluir seus estudos. Seria um banho de água fria nas esperanças brasileiras, mesmo que isso fosse previsível. As cartas que foram entregues por Bregaro aconselhavam o príncipe a separação, visto que: “De Portugal não temos nada a esperar senão escravidão e horrores”, escreveu Bonifacio. A princesa Leopoldina para demonstrar urgência decidiu por apelar ao emocional do marido: “O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece”. E havia ainda o perigo, segundo o cônsul britânico no Rio de Janeiro, que as cortes portuguesas planejavam já cassar seu direito ao trono português, como forma de punição à sua desobediência.  

Segundo a descrição do Padre Belchior, um dos que havia ficado com o príncipe para acompanhá-lo em seu desarranjo, D. Pedro ao ler as cartas: “Tremendo de raiva, arrancou de minhas mãos os papéis e, amarrotando-os, pisou-os e deixou-os na relva. […] Dom Pedro caminhou alguns passos, silenciosamente, acompanhado por mim, Cordeiro, Bregaro, Carlota e outros, em direção aos animais que se achavam à beira do caminho. De repente, estacou já no meio da estrada, dizendo-me: – Padre Belchior, eles o querem, eles terão a sua conta. As cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de rapazinho e de brasileiro. Pois verão agora quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as nossas relações. Nada mais quero com o governo português e proclamo o Brasil, para sempre, separado de Portugal”.

Minutos depois, quando o príncipe se reuniu novamente com sua guarda de honra, ele teria dado um “segundo grito”, esse sim com mais euforia e as margens de Ipiranga. O padre decreveu ainda o “segundo grito”: – Amigos, disse dom Pedro, as cortes portuguesas querem mesmo escravizar-nos e perseguem-nos. De hoje em diante, nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais-. E arrancando do chapéu o laço azul e branco, decretado pelas cortes com símbolo da nação portuguêsa, atirou-os no chão, dizendo: – Laços fora soldados! Viva a Independência e a liberdade do Brasil. Respondemos com um viva ao Brasil e a dom Pedro-. O príncipe desembainhou a espada, no que foi acompanhado pelos militares. Os acompanhantes civis tiraram os chapéus. E dom Pedro disse: – Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a liberdade do Brasil-. […] Dom Pedro embainhou novamente a espada, no que foi imitado pela guarda, pôs se à frente da comitiva e voltou-se ficando em pé nos estribos: – Brasileiros, a nossa divisa de agora em diante será Independência ou Morte!”

De maneira nenhuma seria perdoável o descaso que a independência brasileira é tratada hoje, o 7 de setembro se resume em uma parada militar ignorada por milhões de brasileiros. Se dom Pedro, Jose Bonifácio e outros milhões tiveram orgulho de ser brasileiros, quando o Brasil nem era independente, por que hoje nós não temos? Ter orgulho dessa nação que já tem quase 200 anos de história independênte. Apesar do momento singelo, D. Pedro ao proclamar a independência, mudou uma história colonial de mais de 300 anos e mostrou-nos, nesse gesto, o quão rico em humanidade, recursos e potencialidade nosso país é.

N.A.: Este texto foi publicado as 16 horas pois foi o horário exato em que dom Pedro I proclamou a independência do Brasil

6 Replies to “O Grito do Ipiranga”

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: