A Guerra de Independência do Brasil (parte 2)

Scroll down to content

Escrito por : Antonio Auriemo

O Heroísmo do Exército Imperial Brasileiro

O processo da consolidação da independência não seria completo se não fosse o enorme esforço do Exército Imperial Brasileiro. O exército teve enorme importância nos confrontos com portugueses que já se encontravam no Brasil antes do Grito do Ipiranga, e que habitavam principalmente o litoral do país, onde aguardavam que viessem reforços de Portugal. 

O exército brasileiro, que foi, primeiramente, formado na época da independência, herdou dos portugueses, do período colonial, a estrutura defasada e ultrapassada de corpos organizados em primeira, segunda e terceira linha. Assim como na marinha, as tropas da primeira linha, além de serem as únicas a receberem salários, ainda que baixos, eram em sua maioria formadas portugueses fiéis às cortes instituídas em 1820. A situação se agravava ainda mais quando se tratava dos corpos de segunda e terceira linha: “Eram forças de reserva, constituídas pelos regimes de milícia e ordenanças e só convocadas em caso de emergência”, destacou Laurentino Gomes. Seus integrantes eram, em geral, multidões de jagunços ou seguranças, que os coronéis e fazendeiros locais mantinham em suas propriedades que eram extremamente mal preparados para servirem em um exército com um comando unificado. 

Com intenção de substituir as forças antigas e obsoletas, estabeleceram-se programas de alistamento que percorreram todo o Brasil em busca de novos soldados. Contudo, poucas pessoas realmente se voluntariaram a servir o exército, devido aos maus tratos e as terríveis condições de higiene. Por isso, eram frequentes os alistamentos forçados: muitos eram escravos de grandes latifundiários ou cidadãos que eram capturados por soldados da corte em cerimônias religiosas ou em praça pública, e levados acorrentados à força ao Rio de Janeiro. Segundo muitos historiadores, a aversão ao recrutamento do exército era tanto que muitos homens chegavam a amputar os dedos da mão, para assim não terem como atirar. Alem disso, o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, que estava no Brasil notou, em sua viagem ao Paraná, que as casas estavam abandonadas – as pessoas haviam fugido para o Rio Grande do Sul, afim de evitar o recrutamento. “Na prática o recrutamento forçado atingia apenas as classes mais humildes e desprotegidas. Mas foram esses homens, que humilde e anonimamente, amparam a independência”, ressaltou o historiador Juvêncio Lemos.

Além dos brasileiros, à semelhança do alistamento na marinha, muitos estrangeiros foram contratados para servirem nas forças armadas terrestres, só que ao invés de mercenários ingleses, serviram mercenários germânicos. A imperatriz Leopoldina foi a encarregada de tratar com seu amigo e secretário major von Schäffer da vinda de germânicos ao país. Schäffer fora despachado para Europa, pela própria imperatriz afim de cuidar de arregimentar homens. Em carta a Schäffer, Leopoldina escreveu: “mande mais 3 mil homens, todos solteiros e moços.” De acordo com Paulo Rezzutti, biógrafo da imperatriz: “D. Leopoldina considerava os soldados germânicos um fator de estabilização da monarquia brasileira que, na visão dela, contribui para união do Brasil.”

Para persuadir os interessados, Schäffer prometia mil maravilhas, que nem sempre correspondiam à verdade, fazendo com que muitos germânicos emigrassem ao Brasil sob falsas promessas. Segundo Edward Theodore Bosche um germânico que viria mais tarde as Américas, Schäffer era: “Um destes panegiristas, que sopram com bochechas infladas na trompa da lisonja, mostrando aos jovens a perspectiva de uma carreira brilhante com as cores encantadoras de uma descrição eloquente.” De fato parecia tratar-se uma cruel estratégia de marketing do século XIX: antes de receberem as regalias prometidas, teriam que lutar na guerra e na maioria dos casos, os que sobreviviam não eram pagos pelo governo. Entretanto, D. Leopoldina, ao final da vida, morreu endividada por distribuir dinheiro, do seu próprio bolso, aos germânicos que não foram pagos propriamente pelo governo. Foi verdadeiramente um exemplo de integridade nas lutas pela nossa independência. 

A Bahia foi um lugar crucial e estratégico para a vitória brasileira. Lisboa, prevendo o caos que se dera no Brasil após o dia do Fico, mandou que o general português Luís Madeira de Melo substituísse o então governador da Bahia, que era favorável à causa brasileira, Manuel Pedro de Freitas Guimarães. Muitos dos militares e civis patriotas que estavam na capital baiana, fugiram pela madrugada do dia 20 de fevereiro (dois dias após a chegada do novo governador). Pouco a pouco, pequenos povoados, situados no recôncavo baiano, foram se mobilizando para formar um cinturão de bloqueio. O objetivo era impedir a comunicação de Salvador com outras cidades fiéis a Lisboa e também a chegada de suprimentos por terra.

As pressas, os governos das vilas do recôncavo, procuravam formar batalhões para resistir e efetuar o bloqueio; muitos dos homens recrutados eram camponeses pobres, escravos e crioulos agricultores. “Os soldados estavam descalços, famintos e com os soldos atrasados. Muitos morreram de tifo e impaludismo, febres endêmicas do recôncavo”, destacou Laurentino Gomes.

A missão de organizar esse exército improvisado seria dada ao general francês Pierre Labatut. Labatut ao chegar na Bahia, trouxe consigo os mercenários germânicos que D. Leopoldina havia contratado. A pluralidade de nacionalidades, resultava em equívocos na comunicação, o que complicou ainda mais a tarefa do general. Labatut enviou diversos ultimatos ao general Madeira, que os ignorou: “General, o canhão e a baioneta vão decidir a sorte dos tiranos do Brasil, dos cruéis opressores da excelsa capital dos honrados baianos”, ameaça do general francês a Madeira. Labatut percebendo que fora menosprezado decidiu concentrar-se em efetuar o bloqueio terrestre o que resultou na mais sanguinária batalha desta guerra.

Ocorrida em Pirajá, dez quilômetros de Salvador, a batalha envolveu mais de 10 mil patriotas e portugueses. Dentre os 10 mil combatentes, estava a famosa Maria Quitéria, que devido a proibição do alistamento de mulheres, havia cortado o cabelo, amarrado os seios e ido a guerra fingindo ser um homem. Depois de seu heroísmo nessa batalha, o imperador recebeu-a no Palácio de São Cristóvão e a condecorou-a com a Ordem do Cruzeiro do Sul. (Muitos dizem que Maria Quitéria serviu de inspiração ao filme Mulan da Disney). A batalha do Pirajá custou muito esforço e segue brasileiro. Segundo o historiador Tobias Monteiro, a batalha foi ganha por um engano: ao invés do toque de recuar ouviu-se um toque de avançar, que fez com as ja dizimadas forcas brasileiras tomassem de surpresa as forcas portuguesas. 

Depois da falha tentativa de romper o bloqueio brasileiro, os portugueses evacuaram a cidade no dia 2 de julho de 1823. Após a queda de Salvador, outras províncias adeptas a Portugal, declararam apoio ao domínio do Rio de Janeiro. É importante sabermos o esforço que custou para formar o país em que hoje vivemos. Do jogo de cintura diplomático de José Bonifácio, Leopoldina e D. Pedro ao heroísmo no campo de batalha de Maria Quitéria e os outros quase 20 mil homens mobilizados para defender nosso país. Não devemos jamais esquecer-nos das almas valorosas que deram seus esforços ou suas vidas ao bem estar de nossa pátria.   

Do mesmo jeito de D. João deixou Lisboa, 15 anos antes, para começar no Brasil um caminho sem volta, um processo de independência irreversível e que tanto desejava, os baianos se viram livres do domínio português. Viram um Brasil onde brancos, negros e índios lutavam pela mesma causa, deixando suas diferenças, ideológicas, raciais, espirituais e culturais, de lado pois, todos eram brasileiros. Viram um novo Brasil, um Brasil livre, livre como hoje, livre para seus próprios cidadãos construírem, juntos, sua nova história.   

8 Replies to “A Guerra de Independência do Brasil (parte 2)”

  1. Ler esse texto fechou meu domingo com chave de ouro. Incrível como pode ser interessante nossa História. Obrigada Antônio, continue nos proporcionando muitos textos

  2. Excelente artigo, estou aprendendo muito com os teus textos, por exemplo a vinda dos alemães em 1822, aprendemos que eram colonos, não tinha a menor ideia que eram mercenários e que a Da. Leopoldina pagou do bolso. Não lembrava que o general do exercito brasileiro era um francês não se aprende isso na escola! Tudo muito interessante. Parabéns. Jorge Frederico

  3. Antonio mais uma vez muito legal , não conhecia esta entrada de alemães no processo de independencia do Brasil

  4. Antonio, gostei muito deste artigo, muito bem pesquisado.
    Gostaria muito de saber o que aconteceu com os mercenários germanicos importados – e pagos – pela Imperatriz Leopoldina. Voltaram para a Europa?
    Está de parabens – embora nao partilhe do entusiasmo de seu último parágrafo.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: