A Guerra de Independência do Brasil (parte 1)

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Escrito por : Antonio Auriemo

Neste dia dos pais, dedico este texto ao meu pai, a quem admiro imensamente a coragem, a persistência e a capacidade de me trazer segurança.

Dedico-o também aos meus avós, que considero como segundos pais.

O cenário em que se deu a luta pela independência

Com a crise econômica e política no Brasil, Portugal passou a ser o destino número 1 de imigrantes brasileiros, segundo o SEF em 2016 o número de imigrantes brasileiros residentes em Portugal foi de mais de 80 mil, com uma estimava de um total de 110 mil se forem contados imigrantes ilegais. Dado esse acolhimento de brasileiros por portugueses em sua terra natal, é difícil de acreditarmos que no período de independência brasileira, patriotas e lusitanos se enfrentavam brutalmente e constantemente nos campos de batalha e até nas ruas das principais capitais do país.

É usual aprendermos na escola que o processo de independência do Brasil foi pacífico, que o rei D.João VI teria negociado a ruptura dos dois países com o filho Pedro, porém houve sim inúmeras batalhas e conflitos armados. Portugal já começara a mobilizar tropas e armamentos desde o dia do Fico (antes do 7 de setembro), enviando 2 mil soldados sob o comando do general Avílez e tendo declarado D. Pedro e seus ministros insurgentes. A guerra oficial, descartando conflitos isolados, teria durado quase um 2 anos. O país por volta de 1822, tinha cerca de 4 milhões de habitantes, só nas batalhas travadas contra portugueses morreram por volta de 4 mil. Se comparada com as guerras de independência de outros países das Américas, como por exemplo a dos Estados Unidos, que durou 8 anos e teve 25 mil mortos, a cifra do Brasil foi baixa. Isso muito também devido as condições de extrema pobreza em que Portugal se encontrava. Contudo, ainda asim seria um erro desconsiderar essas 4 mil almas que morreram pelo Brasil e que jamais poderiam ser esquecidas da forma que são hoje em dia.  

A maior parte das batalhas ocorreu no Norte e Nordeste, onde D. Pedro não conseguira arar um terreno de forma favorável para si, antes do grito. Portugal também apostava na província da Cisplatina, atual Uruguai, onde achava que o sentimento independentista da própria região contra o Brasil se tornaria favorável a ele, o que pouco depois se provaria errôneo. Como consequência da má interpretação, tropas lusitanas foram movidas de Montevidéu a Salvador.

De acordo com Laurentino Gomes, escritor de uma obra sobre a independência: “A sorte da independência se decidira na Bahia, posição estratégica escolhida pelos portugueses para resistir e, se possível, reconquistar a partir dali as demais províncias consideradas rebeldes.” Essas regiões do Norte e do Nordeste se encontravam sob domínio português, devido ao distanciamento geográfico e político. A rivalidade entre a região Norte/Nordeste e Sul/Sudeste corria solta: Logo que a revolução liberal do Porto explodiu em 1820, as províncias do Norte e Nordeste foram as primeiras a declarar apoio a Portugal, visto que desde o ciclo do ouro, o sul do país centralizava cada vez mais o comércio e o afluxo de pessoas. A situação já se acirrara quando em 1763 o Rio de Janeiro se tornara a capital da colônia, substituindo a antiga em Salvador (por volta de 1760 o número de habitantes da província do Rio de Janeiro era de 40 mil, em 1822 e número deu um salto, chegando em aproximadamente 330 mil).

Se contextualizarmos a situação financeira e política do Brasil, devido a volta do rei D. João VI a Portugal, é quase impossível de acreditarmos que ganhamos a guerra: O monarca ao retornar levou consigo todo tesouro nacional do Banco do Brasil, deixando o país extremamente endividado. As forças armadas brasileiras, muito precárias, em sua maioria dispunham de militares portugueses que obedeciam somente as ordens de Lisboa. O Brasil começava tudo do zero, sem uma constituição a seguir e até pouco tempo atrás, antes da nomeação do santista José Bonifácio para ministro do Reino e do Estrangeiro, sem um governo propriamente brasileiro. Sem apoio diplomático algum e com um território gigante para defender, que como já vimos, nem todo era favorável ao Rio de Janeiro e a D. Pedro.

Para muitos historiadores o maior acerto de D. Pedro foi o de nomear José Bonifácio como seu ministro, e seu maior erro, demiti-lo. Nascido em Santos, Bonifácio se mudou no ano 1783 para Portugal, onde foi membro da Academia de Ciências de Lisboa, da Sociedade Filomática e da Sociedade de História Natural de Paris, e ainda mais tarde, viria a lecionar na Universidade de Coimbra. Bonifácio era estudioso da independência dos Estados Unidos, estava em Paris no furor da revolução francesa onde pegou em armas contra os revolucionários jacobinos. Estava também na invasão de Portugal por Napoleão e fez parte do corpo de soldados voluntários. Todas essas experiências de vida fizeram com que muitos, hoje em dia, o considerem o mais sábio de seu tempo e estar ao lado de D. Pedro, nesse difícil período da nossa história, certamente foi vantajoso ao país.   

A decisiva participação da Armada Imperial na guerra de independência

Uma das fundamentais lições que Bonifácio tinha aprendido na independência norte americana, que se revelaria fundamental para a decisão da guerra, foi o investimento do governo na marinha de guerra; os americanos construíram uma armada tão forte a ponto combater a poderosa armada britânica. Por isso, Bonifácio entendia que o Brasil com mais 8 mil quilômetros litorâneos, deveria outorgar importância à ainda inexistente marinha de guerra brasileira, para impedir que soldados portugueses pudessem desembarcar em território nacional e causar sofrimento à população.

O empenho necessário para adequar a marinha aos requerimentos básicos para combater a frota portuguesa provou-se extenso, a começar pela recuperação e aquisição de embarcações. Dos poucos navios disponíveis para uso, todos haviam chegado com a corte em 1808, tinham desenho antiquado e estavam esquecidos nos portos. Tiveram que ser reparados às pressas. As velas se encontravam em estado tão lamentável que se rasgavam com o vento mais fraco e a pólvora e os canhões estavam em condições tão ruins que os projéteis só atingiam metade da distância almejada.

Segundo Laurentino Gomes: “Listas começaram a percorrer o país com o objetivo de recolher fundos para a compra de navios, armas e munições. Era a primeira vez que os brasileiros se mobilizaram em torno de uma causa comum.” O imperador D. Pedro I e a Imperatriz Leopoldina foram os primeiros a contribuir, seguidos, surpreendentemente, de até pessoas da classe baixa que doavam o máximo que podiam. No início de 1823 o governo conseguiu comprar dois brigues cujo os nomes eram Caboclo e Nightingale, este rebatizado para Guarani, um nome que simbolizou a miscigenação de culturas presentes no país. Assim, esperavam que o Brasil conseguiria, no decorrer da guerra, capturar mais navios portugueses.

O problema mais grave, entretanto, não eram as embarcações e sim o recrutamento de oficiais e marinheiros. Dos poucos oficiais presentes, a maioria eram portugueses que para muitos não eram confiáveis, o que se provou certo; a tripulação portuguesa do navio Maria Teresa prendeu seu comandante e entregou a embarcação às forças portuguesas em Montevideo.

Em meio ao caos da falta de marinheiros leais à causa brasileira, entraram em ação os diplomatas e o embaixador brasileiro na Inglaterra para recrutarem mais homens. O país era propício a esse tipo de alistamento, já que com a queda de Napoleão, 90% dos oficiais da marinha britânica estavam desempregados. A maioria dos mercenários enviados vieram sob o disfarce de que trabalhariam como colonos e agricultores. Isso devido ao país não reconhecer formalmente a independência do Brasil e também a lei britânica chamada Foreign Enlistment Act, que proibia os vassalos britânicos de prestarem serviços militares a outros países como mercenários. Entretanto, ainda foi preciso muito treinamento para adequar os marinheiros aos padrões requeridos, como relata o almirante Tomas Cochrane ao inspecionar os marinheiros e oficiais do Rio de Janeiro: “Eu nunca tinha tido sob meu comando um grupo tão incompetente.”

No dia 13 de março de 1823 chegou no Rio de Janeiro o que muitos consideram como o herói da independência brasileira ou, até mesmo, o fundador e patrono da marinha, o almirante escocês Lord Thomas Cochrane. Cochrane ganhou o apelido de “Le Loup de Mer” (Lobo dos Mares) dos franceses quando lutara contra Napoleão. Ele lutou pelo Chile em sua guerra de independência contra os espanhóis, e mais tarde, depois de sua passagem pelo Brasil, pela Grécia em sua independência contra o Império Otomano. A sugestão de contratar o almirante partiu do embaixador brasileiro em Londres, Felisberto Caldeira Brant Pontes em uma carta a José Bonifácio, onde dizia: “O seu nome apenas é suficiente para encher de terror os nosso inimigos.” Bonifácio, pouco após o 7 de setembro, teria mandado entregar o convite a Cochrane pedindo que comandasse as forças navais brasileiras. O ministro ainda dizia que: “O governo lhe fará todas as promessas que forem reciprocamente vantajosas.”

Com sua inteligência e astúcia, Cochrane conseguiu conquistar cada estado brasileiro fiel a Portugal, de formas pouco ortodoxas. A Bahia foi através de um bloqueio naval, já o Maranhão foi mais peculiar; ao se aproximar do porto de São Luís (cidade que ainda permanecia fiel a Portugal), o almirante hasteou em seu navio uma bandeira britânica. O governo acreditando que se tratava de um aliado mandou um mensageiro para dar boas vindas. Ao subir na embarcação, o mensageiro foi capturado; Cochrane ordenou a rendição do governo em troca da vida do homem, o governo sabendo que Lisboa já havia desistido da guerra, tratou logo de render-se. Para conquistar o Pará, Cochrane mandou que um de seus homens dissesse ao governador que toda a esquadra brasileira estava prestes a atacar a cidade de Belém. Era uma mentira, pois a esquadra ainda se encontrava no Maranhão, entretanto, mesmo assim o governo português situado no Pará, acabou fugindo pouco após a falsa ameaça. Assim, Cochrane acabou conquistando o Maranhão e o Pará sem disparar um tiro sequer. Depois de seus serviços prestados ao Brasil, Cochrane ainda foi condecorado, pelo imperador D. Pedro I, como Marquês do Maranhão.

Talvez a participação mais importante da Armada Imperial tenha sido na Bahia, durante o cerco de Salvador. A cidade de Salvador serviu como lugar estratégico para Portugal, não só porque era uma das cidades mais movimentadas do mundo, mas também, mesmo com a migração de capital ao sul do país, a cidade tinha uma importante indústria naval, que produzia navios para todas as regiões do Império. Por isso foi escolhida pelos portugueses como base para reconquistar todas as demais regiões do Brasil. Durante a conquista da cidade de Salvador pelo general português Madeira, as tropas brasileiras que ali estavam, fugiram para situar-se no recôncavo em torno da cidade, impedindo que portugueses recebessem suprimentos por terra. A Armada foi encarregada de fazer o mesmo pelo mar. Em 1823, na batalha de 4 de maio, o almirante Cochrane tentou efetuar o bloqueio, mas foi surpreendido por um motim de tropas portuguesas a serviço do Brasil. Devido a essa traição, Cochrane e o restante de sua frota tiveram que retirar-se em fuga. Logo após, a frota brasileira recebeu melhorias nas armas, nas munições e ainda contratou mais mercenários estrangeiros para que substituíssem os portugueses.

Apesar de algumas tentativas de quebra-lo, como na batalha de Itaparica, onde a esquadra brasileira junto comresidentes da ilha de Itaparica resistiram bravamente, em menos de 2 meses, os portugueses evacuaram a cidade e o bloqueio foi realizado com total sucesso. Depois da expulsão das tropas lusitanas de Salvador, Portugal desistiu de enviar novos recursos para travar frentes de conflitos contra brasileiros. Como vemos, a atuação da Armada Imperial na Bahia foi de extrema importância, assegurando a estabilidade, a prosperidade e a independência, do recém formado Império do Brasil.

12 Replies to “A Guerra de Independência do Brasil (parte 1)”

  1. Antonio , parabens pelo bonito texto . Tenho muito orgulho de vc !!! Muito obrigado pela sua dedicacao no dia dos pais !!
    Um beijo grande !
    Papai

  2. Antônio
    Adorei este texto. Confesso que não conhecia uma boa parte do que você apresentou.
    Além de ser fundamental para a Independência, José Bonifácio, foi um brilhante mineralogista tendo descoberto vários minerais. Tanto é assim que há uma variedade do mineral Granada denominada: ANDRADITA em sua homenagem!
    Continue nos ensinado a verdadeira história!!!
    Beijos Tio Julio

    1. Oi tio Júlio, obrigado pelo comentário. José Bonifácio era realmente brilhante. Na minha opinião foi o maior brasileiro de todos os tempos. Beijo grande e feliz dia dos pais!

  3. Estava com saudades dos seus escritos… muito bom este sobre a Independência, aprendi bastante, obrigada

  4. Antonio parabéns !!!
    Esta muito bom e bem agradavel de ler e aprender a historia do Brasil desta forma
    Por favor continue me enviando seus textos , ok ?
    Um beijo pra você
    Fernando Auriemo

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