Dona Leopoldina e o Brasil (parte 1)

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Escrito por : Antonio Auriemo

Dedico este texto a minha mãe e a minha avó

Quem foi Leopoldina?

Maria Leopoldina da Áustria foi a primeira esposa de D. Pedro I imperador do Brasil. Nossa primeira imperatriz ao longo dos anos foi sendo esquecida pelo jeito que nossa história é ensinada e tratada, seu papel nos livros de didáticos hoje e reduzido a mulher gorda, feia e deprimida por causa do caso extraconjugal do marido com a marquesa de Santos; isso é o que professor Olavo de Carvalho chama de “Amnésia Histórica.”(1) Esse texto tem o objetivo despertar empatia e humanizar a figura de Leopoldina. Para isso falarei sobre circunstâncias que moldaram sua personalidade, e sua extrema importância na independência do Brasil e na consolidação de nosso país como império independente.  

Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena, nasceu em Viena, Áustria, no dia 22 de Janeiro de 1797. A família Habsburgo, era uma tradicional casa, absolutista, que governava o Sacro Império Romano Germânico desde a época da renascença e era a família europeia reinante mais antiga. Em sua infância a princesa recebeu uma educação invejável e muito diferente que o seu futuro marido, D. Pedro I, recebera. Dentre as matérias que a princesa aprendeu, destacam-se: equitação, matemática, mineralogia, zoologia e botânica, as quais eram disciplinas apenas ensinadas aos homens na época. Além disso, de acordo com Paulo Rezzutti, biógrafo de Leopoldina, as princesas Habsburgo também aprendiam atuação de teatro, pois assim elas saberiam como comportar-se e a tornar-se figuras públicas.(2)   

Embora Leopoldina tivesse nascido em berço de ouro, sua vida desde a infância foi extremamente sofrida. Perdeu mãe com pouca idade, teve que fugir às pressas de Viena do exército de Napoleão duas vezes, e assistiu seu pai ter que assinar um tratado humilhante com os franceses, que o rebaixou de imperador do Sacro Império Romano Germânico a imperador da pequena Áustria. Porém a “suprema humilhação” como disse o escritor Laurentino Gomes,(3) foi quando sua irmã mais velha, a qual Leopoldina era extremamente amiga e muito íntima, em 1810, foi forçada a casar-se com o imperador francês em troca de um acordo de paz. Aos 13 anos com a partida de sua irmã, à Paris, Leopoldina começava a entender o jogo político europeu e sua função como princesa austríaca, a de servir o estado. “Uma princesa nunca pode agir como quer” como escreveu Leopoldina a sua irmã Maria Luísa.(4)

Do outro lado do mundo, instalado em uma monarquia tropical, com 19 anos, Pedro de Alcântara, príncipe herdeiro da coroa portuguesa e brasileira, estava a procura de uma esposa. A corte portuguesa comunicou as outras cortes europeias que o príncipe estava a procura de uma consorte e Áustria logo enxergando a oportunidade política do momento aceitou a proposta. O casamento com Leopoldina, para Portugal funcionaria como forma de estabelecer relações diplomáticas com a família Austríaca para que assim Portugal pudesse balancear a excessiva influência inglesa em seus territórios. Para os Habsburgos, o interesse, também era de contrapor-se a dominância britânica no Brasil, além do mais, seu interesse predominante, seria garantir a influência do seu regime monárquico na América, que já estava quase toda quebrada em “pequenas republiquetas” (termo usado antigamente, para se referir a América Espanhola independente).

O casamento foi realizado em Viena, no ano de 1817, por procuração, sendo o representante de D. Pedro o marquês de Marialva, embaixador português em Paris. De acordo com o historiador Jurandir Malerba a cerimônia de casamento foi da seguinte maneira: “A 17 de fevereiro de 1817, Marialva entrava em Viena com cortejo formado por 41 carruagens puxadas por seis cavalos, acompanhados por criados de ambos os lados, vestidos com ricas librés.”(5)Depois da magnífica entrada em Viena de Marialva, o casamento ainda contou com um baile para 2 mil pessoas, dentre elas toda a corte e a nobreza austríaca. Todo esse esplendor na cerimônia do casamento de Leopoldina, além de impressionar todos que ali estavam, serviu para mostrar aos europeus que a corte portuguesa não estava tão vulnerável, no Brasil, quanto pensavam. Assim Leopoldina saiu em Julho de 1817 rumo ao Brasil, com altas expectativas.     

Dizem que o marquês de Marialva deu um medalhão, a Leopoldina, com uma esfinge de D. Pedro, e que a princesa logo se apaixonou pelo novo marido. Também no medalhão, havia enormes diamantes e pedras preciosas que o marquês dissera vir do Brasil. Sendo amante da natureza, Leopoldina via o Brasil como um paraíso tropical: a princesa se encantou com a diversidade da fauna e da flora brasileira, como se vê em um trecho da carta que escreveu a família, dias após sua chegada na capital carioca: “O Brasil é um verdadeiro paraíso, há uma incontável quantidade de plantas, arbustos e árvores, especialmente espécies de palmeiras que nunca havia visto nem em estufas.”(6) Em relação ao casamento, Pedro e Leopoldina se afinavam politicamente; no começo, de sua trajetória pelo Brasil, a princesa trazia consigo ideas tradicionais absolutistas, porém com o passar do tempo passou a defender ideias mais liberais como D. Pedro, pois compreendeu que suas ideias conservadoras não se aplicariam ao Brasil. Os dois também gostavam de dar longas cavalgadas, caçar borboletas e observar a natureza na floresta da Tijuca.

Apesar da princesa ter sido relativamente feliz nos 3 primeiros anos de seu casamento, nem tudo era um mar de rosas: em primeiro lugar, foi difícil adaptar se ao calor do Rio de Janeiro, acostumada que estava com o frio da Áustria; em segundo lugar e mais importante suas decepções com o próprio D. Pedro. O príncipe foi criado solto pelas ruas de São Cristóvão e não receberá nenhuma educação, digna de um nobre. Embora muitos digam que Pedro era inteligente, ele certamente não era letrado ou culto e isso não correspondia aos relatórios que Marialva lhe fizera em Viena. O historiador Eduardo Bueno resume dizendo: “D. Pedro não sabia nada de nada e Leopoldina sabia tudo de tudo.”(7) A princesa se espantou novamente com o príncipe, por causa do seu temperamento, Leopoldina descobriu que o príncipe era epiléptico e tinha surtos de mau humor. “Meu esposo esteve um dia bem doente dos nervos e me fez um medo horrível, pois aconteceu de noite e era eu o único socorro.” Escreveu Leopoldina em carta a família.(8)

Os anos seguintes no Brasil trouxeram pouca felicidade à princesa. No primeiro parágrafo menciono que a imagem de Leopoldina foi reduzida a da mulher gorda, e isso representa uma injustiça, porém, de fato a princessa ao longo de sua vida no Brasil foi adquirindo peso. Contudo, ela não teria engordado por ter comido em excesso durante a depressão, conforme afirmam alguns historiadores, e sim porque estava sempre grávida. Sua primeira filha, Maria da Glória, futura rainha de Portugal, nasceu em 1819 e depois ainda deu a D. Pedro mais 6 filhos, um por ano, até ter um aborto alguns dias antes de morrer em 1826. Quanto mais a aparência de Leopoldina se distorcia, mais D. Pedro se distanciava para ficar com sua preferida amante: Domitila de Castro, a futura marquesa de Santos. Além do caso extraconjugal de D. Pedro ter se tornado público, a amante do Imperador, aos poucos passou a ocupar o lugar de Leopoldina, sendo o centro das atenções do marido e até tendo importância política fazendo parte da corte. Isso fez com que a imperatriz entrasse em uma grave depressão e que até hoje é cogitado com sendo a causa de sua morte.

Pedro no dia 23 de novembro de 1826, partira ao Sul do Império para levar reforços devido a Guerra da Cisplatina, atual Uruguai e mesmo já estando muito doente ainda nomeou a Imperatriz como regente interina do país. Contam que ao se despedir do marido, Leopoldina, teria lhe feito de presente um anel de brilhantes, que se abria e que dentro havia dois corações, que neles estavam escrito Pedro e Leopoldina. De acordo com Paulo Rezzutti, em seu livro sobre Leopoldina, a Imperatriz teria dito: “Eu morro: você quando vier do Rio Grande, já não me há de achar. Aqueles que na vida foram desligados sejam unido depois da morte.”(9) Ainda segundo Rezzutti “Ele a abraçou (D.Pedro) chorando ambos muito; e ela lhe disse: que tudo lhe perdoará, e nenhum rancor lhe tinha.”(10) E assim morreu Leopoldina, uma mulher forte e valente, por um lado doente e deprimida entretanto, por outro morrerá em paz e tranquila e principalmente com a sensação de dever cumprido.

 

Referencias Bibliográficas:

  1. – Hangout: A Amnesia Historica https://youtu.be/kkzYLL-Sm3M
  2. – Paulo Rezzutti – Brazil, A Ultima Cruzada
  3. – Laurentino Gomes, livro – 1822, página 126
  4. – Laurentino Gomes, livro 1822, página 127
  5. – Jurandir Malerba, A corte no exilio, pagina 55  
  6. – Ibidem, pagina 316
  7. – Eduardo Bueno, A Imperatriz Infeliz https://youtu.be/wACE9W5gffs
  8. – Ibidem, pagina 317
  9. – Paulo Rezzutti, livro D Leopoldina, A história não contada, pagina 312
  10. – Paulo Rezzutti, livro D Leopoldina, A história não contada, página 312

20 Replies to “Dona Leopoldina e o Brasil (parte 1)”

  1. Gostei muito do texto! Sempre tive curiosidade sobre a Imperatriz Leopoldina, imaginando como deve ter-se sentido: sozinha num país distante com pessoas falando uma língua que ela não dominava e com um marido que não lhe dava o menor apoio. Você a descreveu muito bem.
    Parabéns! T. Ulla

  2. Acabei de entrar no site. Parabéns pelo relato fácil e inteligente da nossa história!

  3. Te encontrei através do instagran do Bruno Astuto e me apaixonei.
    Texto lindo e de fácil entendimento.
    Linda Leopoldina.
    Chorei.
    Como Ela representa muitas mulheres nos dias atuais. Quantas ainda passam por essas situações.

  4. Adorei o texto. Tive o privilégio de fazer parte da equipe do Departamento de Geologia e Paleontologia (DGP) do Museu Nacional do Rio de Janeiro/UFRJ. E pude perceber o carinho que os pesquisadores têm pôr está magnífica mulher. Se temos ciência neste país devemos à ela.

  5. Adorei o texto. Tive o privilégio de fazer parte da equipe do Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional do Rio de Janeiro/UFRJ. Pude observar o carinho que os pesquisadores têm pôr está magnífica mulher e que se existe ciência hj no Brasil. Devemos muito aos seus esforços de trazer os cientistas e na divulgação científica.

  6. Parabens pela iniciativa do Blog e pelo texto Antonio! Foi o primeiro que li mas vou ler outros. Uma ideia para você seria fazer tbem um podcast com esses textos! Abraços

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