O Quilombo dos Palmares (parte 3)

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Escrito por : Jorge Landmann

Zumbi dos Palmares

Existem muitas versões sobre a origem de Zumbi. A mais verossímil, parece ser a história de um bebê entregue ao padre Antonio Melo por um capitão do mato. A prova que existe são duas cartas do padre a um colega de Portugal comentado sobre o Zumbi. Dizia, ser um menino e franzino e muito inteligente, que sabia ler e escrever como poucos brancos na colônia, e falava latim. O nome de batismo escolhido para a criança foi Francisco. Leu livros em português e latim e, segundo consta, o padre tratava Francisco não como escravo, mas ajudante. A vida de padre no interior da colônia no século 17 não era das melhores, vida muito simples e austera. Talvez movido pelo tratamento sub-humano e a violência contra os escravos do eito, com a qual convivia no dia a dia, o já maduro Francisco aos 15 anos fugiu para Palmares. Naquela época um escravo do eito, ou seja, das plantações, vivia entre 25 a 35 anos. Trabalhava de sol a sol, domingos e feriados religiosos, uma bula Papal no século 17 tirou a alma do negro enquanto escravo, portanto era equiparado a animais.

Sua sabedoria foi importante para cair nas boas graças do rei Ganga Zumba e os outros líderes do reino dos Palmares. O comandante Ndalaquituche foi o mais próximo dele e considerado seu irmão.

Apesar de ter galgado altas posições no reino, e se tornar um dos líderes, só foi depois do acordo de Ganga Zumba com os portugueses que Francisco assumiu a liderança dos Palmares. Zumbi, como ficou conhecido, tem vários significados, Zambi ou Nzambi é Deus ou divindade maior, em vários dos idiomas banto. Em quimbundo Zumbi significa feiticeiro ou um tipo de duende. No mudo ocidental o significado de Zumbi acabou sendo de um morto vivo. Um ser com vida eterna, normalmente sem alma. A crença entre os portugueses e escravos era essa; Zumbi era imortal.

Foram muitas as lutas entre Zumbi e os portugueses. Entre as mais acirradas podemos destacar:

Apenas dois meses após o acordo com Ganga Zumba, o governador enviou uma expedição comandada por João de Freitas da Cunha aos Palmares, eram duzentos homens, o objetivo era atacar Macaco, a capital agora comandada por Zumbi dos Palmares. Quando Zumbi soube do objetivo da expedição foi ao encontro dela, a batalha foi rápida e a derrota dos portugueses completa, a maioria deles mortos. Nestas expedições quase sempre havia escravos carregadores, que levavam os mantimentos, barracas, redes etc. Após a derrota, os comandantes de Palmares davam-lhes a opção de viverem livres nos Palmares, sob condição de servo numa família de um dos quilombos, apenas durante algum tempo para aprenderem os costumes e valorizarem a liberdade. Quando um escravo fugia e chegava aos Palmares não havia esta obrigação.

Cada vez mais brancos pobres ou perseguidos pela Coroa ou Santa Inquisição chegavam aos quilombos, onde já habitavam índios e mamelucos. Todos reconheciam a autoridade dos comandantes do quilombo que os acolhia.

O controle de Zumbi sobre os Palmares era total. Após esta derrota um português, Fernão Carrilho, que havia recebido do governador, tempos atrás, grandes extensões de terras boas para cria de gado na região dos Palmares, fez um acordo com Zumbi. O acordo incluía o pagamento de tributos em cabeças e alertar os Quilombos de ataques portugueses. Assim que descoberto o acordo pelo governador, Fernão Carrilho foi considerado traidor, e só conseguiu escapar da deportação para Portugal e condenação na metrópole, porque tinha muitos amigos poderosos. Forçado a mostrar lealdade para com a coroa, ele ajudou a organizar a maior expedição já enviada aos Palmares até aquela data.

A expedição contava com o apoio direto do Rei de Portugal, ele abria mão de impostos e até parte do dote da portuguesa Rainha da Inglaterra, Catarina de Bragança.  

Quase mil homens inclusive soldados do exército do Rei, iam também quatrocentos homens negros do Terço dos Henriques, comandados pelo negro Mestre de Campo e cavaleiro da ordem de São Tiago, Dom Rodrigo Domingos Carneiro. 

Houve embate em algumas frentes, com pouco sucesso para as tropas portuguesas quase sempre rechaçadas, um dos principais Quilombos chamado Osenga rechaçou os ataques matando grande número de portugueses. O pior encontro foi com um pequeno quilombo, destruído e queimado e os quilombolas mortos ou aprisionados. Na sua quase totalidade as expedições eram destroçada por Zumbi, como foi uma outra importante comandada por Jácomo Bezerra. a

No interim, em 1683, o príncipe Dom Pedro Regente de Portugal virou o Rei Pedro II conhecido como “o pacificador”. Um dos primeiros atos, motivado principalmente pelos motivos econômicos de Portugal e o prejuízo na produção de cana, foi o de escrever uma carta para Zumbi. A carta pedia a paz e o direito de Zumbi e seus comandantes de poderem se assentarem em qualquer parte da colônia e viverem em paz com suas famílias. 

A resposta ao Rei foi a esperada pelos colonos portugueses. Zumbi além de não aceitar, começou a atacar as vilas de Pernambuco, roubando e incendiando casas e lavouras. Também precisava de mulheres nos Palmares havia muito mais homens do que mulheres. Durante a escravidão, principalmente nos primeiros dois séculos, os navios negreiros traziam muito mais homens do que mulheres. Numa destas incursões, os quilombolas levaram mais de cem mulheres principalmente negras e índias mas também brancas, inclusive de famílias dos senhores de engenhos, como a esposa do alferes de Sirinhaém.

Além de Zumbi havia um outro importante inimigo de Portugal era Domingo Jorge Velho que foi considerado pelo Conselho Ultramarino de Portugal o maior bandido do império português. Entre as acusações está o assassinato de centenas de índios cristianizados e tribos não batizadas, roubo de um terço de todo o gado do nordeste brasileiro e todo tipo de violência contra populações que se encontravam em seu caminho. Tendo por duas vezes ido de São Paulo até ao Maranhão a pé acompanhado de um exército de bandidos e índios “domesticados”. Tal era a fama de violento, que o Governador Geral do Brasil e o governador de Pernambuco convenceram, embora a duras penas, o Conselho Ultramarino de contratar os serviços do paulista contra os Palmares. Em 1690 o governador de Pernambuco, Souto-Maior convocou-o para uma reunião. Domingos Jorge Velho mandou representantes à Recife para negociar, os cronistas da época ficaram abismados com o fato de nenhum deles se comunicar em português, o que era normal no século 17 em São Paulo onde a grande maioria do povo só falava um dialeto que misturava o tupi com português chamado de “língua geral” do povo paulista. Na muito mais desenvolvida e rica capitania de Pernambuco, tiveram que chamar os “línguas”, como eram conhecidos os interpretes da época, para poderem se entender com os paulistas.

Domingo Jorge Velho e seus comandados exigiram cem mil Reis em dinheiro mais um quinto do valor dos quilombolas capturados, 500 mil Reis em panos em roupas e o perdão tanto dos crimes que havia cometido quanto dos que viesse a cometer. Podia também prender qualquer pessoa livre que acreditasse ajudar Zumbi.

Ao longo de vários anos Domingo Jorge Velho perdeu sistematicamente todos os embates com as forças dos Palmares. Em um destes embates restaram com ele apenas 4 homens vivos, só não morreu porque momentos antes do último ataque quilombola apareceu uma coluna de reforços portugueses.

Antes de comandar o ataque final, Domingo Jorge Velho foi convocado para lutar contra o cacique Canindé, que comandou 5.000 índios numa revolta no Rio Grande do Norte, possivelmente o maior levante indígena da história do Brasil. No Rio Grande do Norte o paulista roubou mais seis mil cabeças de gado, alegou que sua gente estava passando fome e que o governo não lhe havia enviado alimentos, além disso já estava perdoado por qualquer crime que cometeria nesta colônia. Quando voltou a Pernambuco lançou uma campanha contra os quilombos, marchou direto contra o quilombo de Ndalaquituche, uma cerca menor do que Macaco com bem menos habitantes. Apesar de ser um quilombo menor foi derrotado e perseguido durante dias, perdeu muitos homens entre os mortos nos combates e índios e mamelucos que fugiram. Conseguiu chegar a um arraial que foi cercado pelos quilombolas e atacado de tal forma que Domingos perdeu a maior parte dos seus homens.

Finalmente em 1692, por ordem do rei, a destruição do reino dos Palmares se tornou definitivamente o mais importante evento do império português. Ficou claro que teria que equipar um exército muito mais poderoso do que os armados até então. Ordenou ao Governador Geral do Brasil que montasse um exército com todas as tropas disponíveis no Brasil e que pudesse esvaziar as cadeias da colônia perdoando criminosos que fossem lutar nos Palmares. Os senhores de engenho e outros brancos, donos de terras nos Palmares, contribuíram com homens armados. Capitães do mato e os terços dos Henriques e Camarões, se juntaram ao exército. Armas e munições foram enviadas por Portugal em grande quantidade, acompanhadas de algumas centenas de soldados. Estima-se que que no mínimo 9.000 homens formaram o maior exército jamais organizado por brasileiros no período colonial. Alguns cronistas da época falam em 12.000 homens. Até para a Europa do século 17 era um exército de porte. Acompanhavam o exército centenas de escravos, fizeram uma estrada carroçável até próximo a Macaco para poderem carregar armas, munições, tendas e mantimentos.

Durante 3 semanas o exército cercou Macaco, ataques menores eram rechaçados com muitas mortes. Temiam atacar porque o terreno era íngreme e favorecia os quilombolas. Ao chegar um canhão tentaram atacar, mas também foram rechaçados. Ao verem a impossibilidade de investir contra as defesas sem artilharia pesada, mandaram trazer seis canhões grandes. Assim mesmo não conseguiram chegar perto o suficiente para disparar tiros. A defesa de Macaco embora de madeira, consistia de três cercas, inclusive a primeira fileira era parcialmente protegida por pedras, além de cercada por fossas com pontiagudos estrepes.

Um dos comandantes portugueses, Fernando Viera de Mello, teve a ideia de construir uma cerca oblíqua à paliçada, assim fizeram durante a noite, mas não acabaram faltava um trecho para no dia seguinte, protegidos pela nova cerca, subirem com os canhões até ao alcance dos tiros. Na noite do dia seguinte, Zumbi comandando um grande grupo de quilombolas, saiu escondido por uma porta lateral perto do desfiladeiro que ficava na parte traseira de Macaco. O objetivo era atacar os portugueses pela retaguarda como fizerem no passado com grande sucesso. Zumbi foi surpreendido pelo exército sitiante, em número inferior perdeu a maioria dos homens os que não caiam no campo de batalha morriam ou tentar fugir pela escarpa atrás caiam morrendo.

No dia seguinte os canhões destruíram a cerca de Macaco, a invasão foi sangrenta, os que não morreram por tiros ou arma branca tentavam escapar pela escarpa. Milhares morreram tentando, principalmente mulheres e crianças. Os sobreviventes foram capturados e vendidos da Bahia para o sul. Alguns conseguiram escapar, inclusive Zumbi com dois tiros na perna. Durante quase dois anos vagou com um grupo pequeno pelas matas ao redor,

Numa tarde invadiu a vila de Penedo conseguindo algumas armas e munição. Continuou vagando com seu grupo até que no dia 20 de novembro foi traído por um dos seus comandantes, Antonio Soares, que após torturado entregou o esconderijo de Zumbi ao capitão Furtado de Mendonça. Morto com quatorze tiros e numerosas facadas, o corpo foi mutilado e a cabeça decepada enviada para Recife, onde ficou exposta em praça pública para que o povo visse e acabasse com a crença da imortalidade do líder negro Zumbi. Dia 20 de novembro é hoje o dia da consciência negra.

Embora o paulista Domingos Jorge Velho tenha comandado formalmente por contrato a expedição final, não foi ele que derrotou Zumbi porque o golpe final foi pela estratégia do comandante pernambucano.

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