Escrito por : Jorge Landmann

A história dos Palmares

Os primeiros escravos que achavam refúgio no interior da então capitania de Pernambuco, estabeleceram mocambos. No entanto, já na primeira metade do século 17 eram tantos, que começaram a transformar os pequenos aglomerados de casas, os mocambos, em quilombos fortificados. Muitos mocambos se juntaram movidos por segurança mútua e formaram quilombos de grande porte. A colaboração entre os mocambos e quilombos era fundamental para a sobrevivência de todos. Muitas foram as fazendas destruídas, lavouras queimadas, e famílias dos senhores de engenho mortas, durante os mais de cem anos do reino dos Palmares.

O que sabemos da história dos Palmares foi escrito pelos cronistas da época, na maioria portugueses e alguns holandeses. Os nomes que chegaram a nós eram escritos pela fonia portuguesa, certamente a pronúncia deveria ser algo diferente como o comandante Andalaquituche.

Pequenas expedições foram organizadas em Porto Calvo, Recife e outras vilas menores para capturar e destruir os mocambos. Muitas sem sucesso, outros tantos conseguiam voltar com quilombolas e vende-los ou se tinham “dono”, recebiam prêmios pela captura. Eram chamados de capitães do mato, a maioria aventureiros portugueses ou mulatos forros. Na segunda metade do século 17 os próprios negros livres do Terço dos Henriques, que haviam lutado contra os holandeses, capturavam escravos fugitivos e ao lado dos portugueses, participaram de expedições contra os quilombos.

A Capital dos Palmares era chefiada por um rei, Ganga Zumba e seu chefe militar era o Ganga Muiça, seus domínios se estendiam do interior do atual Estado de Pernambuco até ao centro sul do Atual Estado de Alagoas. Ganga Zumba era filho de uma princesa africana, tinha 3 esposas e vários filhos, vivia na capital dos Palmares, Macaco. Seu irmão Ganga Zona era seu braço direito. Ganga (Nganga) significa em idiomas bantos sabedoria ou conhecimento. Acredita-se que a consolidação do reino começou ao redor de 1660.

Houve muitas lutas sangrentas, muitas foram as guerras e derrotas de ambos os lados. Os holandeses fizeram duas campanhas militares sem grande sucesso, foram bem organizadas com homens e armas, a primeira comandada por Rudolf Barose e a segunda por João Blaer. Encontravam quilombos abandonados, destruíam queimando tudo, tanto casas como lavouras. Na maioria das vezes, os quilombolas eram avisados por espias que mantinham nas cidades ou vigias sempre atentos espalhados pelos territórios adjacente aos Palmares e conseguiam escapar.

Em dezembro de 1672 embarcou de Recife para Porto Calvo, o capitão Antonio Jácome Bezerra, frente a maior e mais bem organizada expedição militar da colônia portuguesa até aquela data. Seus comandados eram soldados disciplinados e experientes, vários haviam lutado contra os holandeses, porém em Porto Calvo encontrou duas colunas de homens indisciplinados que se juntariam a ele. Foram organizadas às pressas por Antonio da Silva, Gonçalo Moreira e Vicente Martins Bezerra, formadas em grande parte por criminosos e vadios além de caçadores de recompensa, mirando a venda de negros capturados.

No dia 19 de dezembro de 1672 saíram de Porto Calvo em duas colunas separadas, a de Antonio da Silva e Moreira e a de Vicente Bezerra, uma em direção a sudeste subindo o rio São Francisco e outra para oeste na tentativa de cercarem dois quilombos. Ao chegarem no topo da serra os homens de Moreira e Antonio da Silva foram surpreendidos pelas forças dos Palmares, provavelmente comandadas por Zumbi e Ndalaquituche. Porém a certa distância as tropas de Vicente Bezerra escutaram os tiros e as presas foram socorrer a outra coluna. No meio do caminho uma expedição de palmarinos surpreendeu-os, depois de uma batalha árdua com muitas mortes, nas duas frentes de batalha os homens das colunas portuguesas começaram a fugir montanhas a baixo, largando armas e munições. Ainda restavam os soldados da expedição principal de Antonio Jácome Bezerra, veterano comandante da guerra contra os holandeses agora reforçado por alguns homens das outras duas colunas. Durante o dia seguinte as forças dos Palmares se juntaram com outras e organizaram uma força de alguns mil homens.

Logo veio o enfrentamento, após muita luta e perdas dos dois lados os quilombolas começaram a ganhar terreno, cada vez mais rápido avançavam contra os invasores, até avistarem Porto Calvo. Nos próximos 3 dias os quilombolas comandados por Zumbi colocaram fogo nas plantações de cana da região e libertaram escravos.

Poucos dias depois o mais poderoso senhor de engenho, dom Cristóvão Lins, que perdera todas as plantações, organizou uma expedição até Ndalaquituche, um dos grandes quilombos, destruindo e queimando tudo que encontrou. Os quilombolas haviam fugido no dia anterior com todos pertences.

Outro episódio importante contra os Palmares foi o do capitão Sebastião Pinheiro Camarão, comandante índio a serviço dos portugueses, embateu-se com várias forças quilombolas pouco conseguiu e foi derrotado próximo a vila de Sirinhaém. Em seu relatório ao governador dom Pedro de Almeida e ao Conselho Ultramarino, que era responsável pelas políticas do império Português, relatou grandes vitórias chegando a afirmar que acabara com os Palmares.

Anterior a este episódio, o capitão negro Gonçalo Rabelo comandante do Terço dos Henriques, frente a duzentos homens, lutou durante meses nos Palmares mas nunca conseguiu uma vitória clara, na maioria dos embate perdia e se reagrupava sendo reforçado com munição e mantimentos pelos portugueses, para novamente atacar e ser derrotado.

Além das expedições relatadas acima, outras muitas lutaram nos Palmares, organizadas oficialmente como a de Antonio Bezerra, foi a de Zenóbio Accioly de Vasconcelos que também obteve pouco êxito. As expedições punitivas dos senhores de engenho como Cristovão Lins, Rocha Barbosa e Barros Pimentel queimavam e destruíam o que podiam, mas quase sem confronto direto.

Quando desembarcou em Pernambuco em janeiro de 1674, dom Pedro de Almeida, o novo governador tinha como missão maior acabar com os Palmares. O ambiente que encontrou foi péssimo, os quilombolas destruíam vilas e plantações, roubavam e matavam. Os senhores de engenhos tinham medo de comprar escravos por que muitos acabavam fugindo ou eram resgatados pelos quilombolas, a produção de açúcar despencava. Além de tudo isso, havia a peste da bexiga, que tinha matado milhares de pessoas da capitania.

Almeida enviou expedições como a sob o comando de Manuel Lopes Galvão, com trezentos soldados, conseguiu destruir o quilombo de Subupira mas não conseguiu mais do que isso durante os dois meses de expedição. Voltou com prisioneiros e segundo relato seu, matou centenas de palmarinos. A mais importante, porém, foi em 1677, o reino de Palmares travou dura guerra contra a expedição portuguesa de Fernão Carrilho. Carrilho conseguiu ganhar batalhas e aprisionar alguns quilombolas dentre os quais dois filhos de Ganga Zumba além de outros parentes do rei. O próprio Ganga Zumba foi ferido numa das batalhas, mas escapou com vida.

Foram tantas as expedições e custos para a coroa portuguesa, em forma de moeda como destruição das lavouras de cana, que em 1678 o governador Pedro de Almeida decide oferecer um tratado de paz ao rei Ganga Zumba. O rei também estava farto de tanta guerra, amigos e parentes mortos, que resolveu receber o enviado do governador.

A proposta de paz foi enviada para Macaco pelo governador que despachou os próprios filhos de Ganga Zumba, aprisionados por Carrilho, para negociarem com o rei como gesto de boa vontade.

A proposta dava total liberdade para fixar residência em Cucaú, ao sul do Recife na região de Sirinhaém, garantia bom tratamento, poderiam fazer comércio e cultivar as terras recebidas. No entanto, a proposta trazia um problema no seu conteúdo; liberdade só para quem era nascido nos Palmares e a família do Ganga Zumba. Os escravos que haviam fugido para os Palmares deveriam ser entregues aos seus donos. Incluía a promessa de entregar os escravos que dali em diante fugissem e fossem para Palmares. Isto revoltou a maioria dos quilombolas. Houve longas discussões em Macaco, o conselho do rei, chamado de Ne Umbanda, estava dividido e a maior parte dos palmarinos, liderados por Zumbi, contrários ao acordo de paz, recusaram-se a deixar Palmares.

Em novembro de 1678, Ganga-Zumba frente a uma grande comitiva, foi a Recife assinar o acordo. Foi recebido com honrarias e muita festa pelo governador, é cedida a ele e seus seguidores a região de Cucaú.

Apenas 400 quilombolas seguiram Ganga Zumba para Cucaú, meses depois Zumbi mandou envenenar o rei e começaram uma série de transgressões em Cucaú, que aos poucos foi reduzido a um pequeno povoado.

 

One Reply to “O Quilombo dos Palmares (parte 2)”

  1. Quanto sangue derramado …
    Parece um filme de ação
    É sempre bom relembrar como tudo aconteceu👍

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